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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Faustino Antunes

Personalidade inventada por Pessoa, a quem é atribuída a escrita de algumas cartas. Numa fase da vida em que se sente possuído por uma «vertigem moral» e pelo medo da loucura (conforme escreve num diário de 1907), incumbe Faustino Antunes de colher informações junto dos seus antigos professores de Durban, Belcher e Haggar, e do ex-condiscípulo Geerdts. Como projecção do próprio Pessoa, é um português que escreve em inglês. Conhece-se um rascunho da carta dirigida a Geerdts, numa versão que Pessoa rejeitou, em que alude ao pretenso suicídio de F A N Pessôa, depois de ter feito explodir uma casa de campo em que estava a viver, o que causara uma «enorme sensação em Portugal», e se afirma detective encarregado de inquirir acerca da sua condição mental, a fim de poder determinar se se tratou de crime ou acidente (Pessoa por Conhecer, II, pp.31-32). A resposta de Geerdts chega, com efeito, endereçada a Faustino Antunes, Rua da Bela Vista à Lapa, morada da tia Maria, em casa de quem Pessoa vivia na altura. Deixa entender que  Pessoa optou por se apresentar como médico (psiquiatra), enviando uma espécie de inquérito com perguntas sobre o jovem Pessoa, dado como «doente mental». Geerdts diz que Pessoa nunca apresentou sinais de desequilíbrio mental, que era, no geral, estimado pelos colegas, e salienta algumas cartacterísticas do seu carácter, como a timidez e «uma certa tendência para a morbidez» e o facto de ser «genialmente dotado». Esta encenação é confirmada também  pela resposta de Belcher. Este não refere qualquer perturbação, antes enaltece a «excepcional originalidade do seu pensamento», augurando-lhe um futuro brilhante (Escritos Autobiográficos, pp. 390-3). Faustino Antunes é, pois, uma máscara circunstancial, mas é também autor de um texto em inglês, intitulado «Essay on Intuition», onde cita Shakespeare e se interroga sobre a (im)possibilidade de se conhecer alguma coisa (Pessoa por Conhecer, II, pp.238-9). O texto é assinado por F. Antunes e A.Moreira, figura de que não se encontra outro sinal.

 

 

Manuela Parreira da Silva