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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Exílio

Exílio surgiu em Lisboa em Abril de 1916, sob a direcção de Augusto de Santa-Rita e  com o subtítulo “revista mensal de arte, letras e ciências”. O número único da revista, dividido em três secções (“Literatura”, “Música” e “Ciência, Filologia e Crítica”), contou com a colaboração de Pedro de Meneses (pseudónimo de Alfredo Pedro Guisado), Teófilo Braga, Fernando Pessoa, António Sardinha, Augusto de Santa-Rita, António Rita-Martins, Martinho Nobre de Melo, Cortes Rodrigues, David de Sousa, António Ferro, J. Leite de Vasconcelos, Cláudio Basto e Vitoriano Braga. O editorial, assinado por Augusto de Santa-Rita, justifica o título da publicação e traça-lhe, numa sequência de analogias, metáforas e paralelismos de estudado efeito retórico, um programa estético em que se reconhece a marca do Decadentismo:

“(...) Em praias de Mysterio exilada a nova geração litteraria, atravez d’esta revista, como Christo, disposta a crucificar-se em calvário de Belleza, reivindica hoje para si o direito da sua autocracia moral impondo à massa amorpha de um povo de inconscientes emotivos um novo credo (...).

Novo Christo do Ideal, como Elle outr’ora no alto da collina em terras de Arimathêa, ella nos aparece ufana do seu Prestigio, por entre o scepticismo dos phariseus modernos, em parábolas d’oiro apregoando a sua Biblia nova.

(...)  Exílio: - será pois o estandarte da nova Geração.

Exílio: - será a Bandeira a cujo panno um punhado de soldados do Pensamento, gritará a victoria dos seus ideais.

Exílio: - será o panno de Arrás onde o engenho da nossa Arte bordará a bizarria das suas concepções.

Exílio: - será a barca da Aventura onde a Alma do marinheiro luziada, incarnada no Poeta, regressará da India do seu Sonho, por novos caminhos, à Pátria do seu berço.

Exílio: - será finalmente a linda praia em desterro onde voluntariamente se expatriarão todos os que, independentemente de cor politica, confiam ainda no ressurgimento de Portugal pelos novos” (pp. 5-6).

Nestes termos retoricamente saturados apresenta Augusto de Santa-Rita uma revista que, situando-se no intervalo histórico entre Orpheu e Portugal Futurista, parece, como diz Teresa Almeida no prefácio à edição facsimilada, “singularmente fora de tempo”. De facto, Exílio é uma publicação intercalar no contexto das revistas do Modernismo, retomando lugares-comuns do Decadentismo como o culto da Beleza, o gosto do vago, do impreciso e do nebuloso, o exotismo e a temática da evasão, o fascínio pelo mistério, a evocação dos antigos Impérios (Bisâncio, Babilónia) e uma certa imagística do poente e das sombras, traduzindo figurativamente a angústia do tempo. Inscrevendo-se numa linha de tradição,  a revista representa, por assim dizer, um retrocesso em relação à vanguarda órfica. São disso exemplo os quatro sonetos de Pedro Meneses aí publicados (recolhidos depois no volume Ânfora), os poemas “Tua presença” e “Céu” de Augusto de Santa-Rita, e os quatro poemas do conjunto “Via-Sacra”, de Cortes Rodrigues.

Mas o decadentismo conjuga-se em Exílio com um projecto nacionalista que, ainda no dizer de Teresa Almeida, “neste princípio de século parece estar por detrás de ideologias de sinal contrário, quer elas sejam a da Renascença ou a do Integralismo Lusitano”. Esse projecto nacionalista surge diversamente matizado nas colaborações de Augusto de Santa-Rita, de António Sardinha ou de Fernando Pessoa. O soneto “Sinal da Raça”, do primeiro, não é mais do que uma evocação lírica, ao gosto tradicional, desencadeando associações épicas: “Teus olhos verdes, filhos da Paysagem,/ São netinhos do Mar, do avô Oceano.../ D’elles se evola espiritual aragem,/ Ó minha Primavera em todo o anno!// (...)// Em teus olhos perpassa, sonha e reza/ Nossa eterna Epopeia e a suavidade/ Da antiga e ingenua graça portugueza... (...)”. Já o texto de António Sardinha “A colina inspirada” vai buscar o seu título a um dos livros de Maurice Barrès, guia do movimento nacionalista em França (La colline inspirée, 1913) e, sob a capa da efabulação histórica, faz inequivocamente a apologia dos valores integralistas. Como faz notar Teresa Almeida, “desprende-se deste texto toda uma mitologia, tristemente anunciadora daquela que será recriada pelo imaginário fascista”, nomeadamente a “metafísica da Raça”, a “sedução do canto guerreiro” e a “apologia da morte”. Destaquemos alguns fragmentos textuais, onde se manifestam também noções-chave do discurso barrèsiano, como a determinação hereditária, ou o culto da tradição e da disciplina:

“Eu moro agora nas visinhanças duma colina inspirada, onde sopra o Vento-do-Espirito, como ness’outra em que Barrès escutou o diálogo eterno da campina com a ermida. Peregrino das grandes emoções, todas as tardes a subo, quando o poente não é mais que uma ferida rubra inflamada. (...)

Todas as tardes a subo, porque ela – a colina inspirada – ensina-me a suprema lição da Terra e dos Mortos. É bem um curso de energia nacional que eu ando a tirar pelas lentas calmas de agosto (...).

Aqui verteu-se sangue, - e sangue propiciatório (...)

Ajoelhemos! Estamos em frente dum altar em que a divindade é a raça e os sacerdotes somos nós. Ajoelhemos! Na expressão parada do olivedo adivinha-se a recordação do sangue derramado. A charrua com que a geira é amanhada não perdeu ainda o talhe da espada antiga. O ferro que hoje nos lavra a courela é ainda o ferro que ontem a recuperou. Ajoelhemos, com os olhos da carne fechados, para que os outros, os de dentro, se possam abrir. No alto da colina o Vento-do-Espirito vai ouvir-se. Crescendo em surdina do vale, a estrofe errante do Passado é, agora ao crepúsculo, como que um grito súbito de Anunciação. (...)

É este o terreno mais que bendito em que os avós de Seiscentos brigaram com os soldados de Castela ‘uma singular e profiada batalha que durou das nove da manhã até se çarrar a noite’ (...). Eu a evoco – a essa ‘singular e profiada batalha’, debruçado para o meu atavismo à procura dalguma reminiscência hereditária (...) (pp. 17-19).

Fernando Pessoa, por seu lado, vai ao encontro das preocupações nacionalistas de Exílio ao colaborar na revista com o texto “Movimento sensacionista”, onde retoma algumas ideias nucleares desenvolvidas nos artigos sobre “A nova poesia portuguesa” publicados em 1912 n’ A Águia. Pessoa distancia-se, todavia, de um projecto político, concentrando-se num projecto poético cuja finalidade diz ser “a da reconstrucção da literatura e da mentalidade nacionaes” (p. 46). Já no artigo “A nova poesia portuguesa sociologicamente considerada” identificara  a “vitalidade de uma nação” com “a sua exuberância de alma, isto é, a sua capacidade de criar (...) novos moldes, novas ideias gerais, para o movimento civilizacional a que pertence”. Agora, reitera a noção de que a poesia é a realização das potencialidades criativas de uma nação. A pretexto da recensão crítica de dois livros de poesia, Elogio da Paisagem de Pedro de Meneses e As Três Princesas Mortas num Palácio em Ruínas de João Cabral do Nascimento, refere o Sensacionismo como um florescimento da alma nacional, uma manifestação de  ressurgimento pátrio: “(...) Tudo isto representa – outro sentido não pode ter – uma instancia da Hora da Raça, que, sentindo a necessidade de realisar Cosmopolis em si, se vira para o único nucleo de artistas que, alem de darem ao seu instincto de Chefes a garantia primaria de serem quasi todos homens de génio, que tomaram de nascença nas mãos o pendão da Raça (ha tanto tempo bolorejando no tumulo de Camões, de Garrett ou de outros bric-à-brac), representam, manifestamente, uma plêiade luzida que nas suas obras enfeixa, com o máximo utilisavel do sentimento portuguez, o máximo aproveitável nas actuaes correntes europêas” (p. 46). Aproveitando para recordar, em termos cáusticos, a recepção crítica de Orpheu, Pessoa define o movimento sensacionista como “primeira manifestação de um Portugal-Europa”, em ruptura com a “estreiteza chronica” da cena literária contemporânea, em que se destacam “a tísica espiritualidade (...) dos tristes poetas da nossa Renascença” e “o neo-huguismo (grande embora) do actual chefe honorário da intellectualidade portugueza” (ibid.). O poeta procura assim conciliar anseios contraditórios, o desafio cosmopolita de Orpheu e o sentimento nacional de Exílio. De notar, ainda, que o Sensacionismo que Pessoa descreve neste texto nada tem a ver com aquele a que Álvaro de Campos dá voz teórica e poética (“Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!”), identificando-se muito mais com o Decadentismo entrevisto nos volumes poéticos de Pedro de Meneses e de Cabral do Nascimento.

Fernando Pessoa colabora também em Exílio com o poema “Hora absurda”, datado de Julho de 1913. Vinculado à estética decadente e simbolista da primeira fase de Pessoa  ortónimo, o texto constrói-se sobre uma série de frases-definições (“O teu silencio é uma nau com todas as velas pandas...”, “Meu coração é uma amphora que cahe e que se parte..., “Minha alma é uma caverna enchida p’la maré cheia”, etc.) que objectivam o subjectivo (ou vice-versa) e obedecem a uma estrutura metafórica recorrente, em que o nome vem acrescentado de atributos que lhe retiram uma ou mais propriedades fundamentais (“nau com todas as velas pandas”, amphora que cahe e que se parte”, “cadaver que o mar traz à praia”, “no meu céu interior nunca houve uma unica estrella”, “o palacio está em ruinas”, “fonte sem repuxo”, “um manuscripto com a phrase mais bella cortada”, etc.). Esta estrutura metafórica sugere a não-realização, a frustração, a inalcançável distância da felicidade, do mesmo modo que na poesia de Mário de Sá-Carneiro as imagens dos “castelos desmantelados”, dos “leões alados sem juba”, da “asa que se elançou mas não voou”, das “ogivas para o sol (...) cerradas”, dos “templos aonde nunca pus um altar”, dos “rios que perdi sem os levar ao mar” e das “mãos de herói, sem fé, acobardadas” se constroem dentro do paradigma da falta e da falha.

O poema “Hora absurda” harmoniza-se com os padrões que Fernando Pessoa reclama para a nova poesia portuguesa – o vago, a subtileza, a “ideação complexa” – e ilustra também alguns aspectos essenciais da poesia do ortónimo: a consciência da consciência (“A minha consciencia de ter consciencia de ti é uma prece,/ E o meu saber-te a sorrir é uma flor murcha a meu peito...//...// Eu sou um doido que estranha a sua própria alma... (...)”), a oposição consciência/vida (“A Hora sabe a ter sido...”), a perda da felicidade (“Todos os occasos fundiram-se na minha alma”), o paradoxo (“Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro”), as associações abstracto-concretas (“Hoje o céu é pesado como a idéa de nunca chegar a um porto...”) e sobretudo essa “poética da Ausência radical e absoluta” que, no dizer de Eduardo Lourenço (“O infinito Pessoa”, in Poesia e Metafísica. Camões, Antero, Pessoa), “constitui o centro da esfera sem circunferência da visão trágica e niilista de Fernando Pessoa”.

 

Bibliografia: Fernando Pessoa, Textos de Crítica e de Intervenção, Lisboa, Ática, 1980; Teresa Almeida, “Nacionalismo e Modernismo. O projecto Exílio”, prefácio a Exílio, ed. facsimilada, Lisboa, Contexto Editora, 1982, pp. VII-XVII; Daniel Pires, Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX (1900-1940), Lisboa, Grifo, 1996.

 

 

Clara Rocha