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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Edgar Allan Poe

Poeta, novelista e crítico norte-americano, (1809-1849). Nasceu em Boston, filho de um casal de actores. O pai, actor de pouco sucesso e alcoólico, abandonou a família quando o filho tinha dois anos. Edgar acompanhou a mãe nas digressões, até à sua morte de tuberculose. Foi então acolhido por um casal sem filhos, John e Frances Allan, de Richmond, Virgínia. Embora a sua adopção nunca tenha sido oficializada, acrescentou Allan ao nome. Acompanhou a família a Inglaterra, de1815 a 1820, iniciando aí os seus estudos, que continuou depois nos Estados Unidos da América. As suas passagens pela Universidade de Virgínia e pela academia militar de West Point são breves, tendo abandonado a primeira e sido expulso da segunda instituição. As dívidas de jogo causaram um corte de relações com o pai adoptivo, que encarava com pouca simpatia as ambições literárias do protegido. A partir desse momento, passou a assinar como Edgar A. Poe. Colaborou em diversos jornais e revistas literárias, como The Southern Literary Messenger (1835-36), Burton’s Gentleman’s Magazine (1839-40), Graham Lady’s and Gentleman’s Magazine (1841-42), The New York Evening Mirror (1844-45) e o Broadway Journal (1845). As crises de alcoolismo prejudicaram a actividade profissional, apesar do sucesso literário alcançado. Escreveu poesia, contos, críticas literárias e textos sobre critpogramas. Acalentou o projecto de criar a sua própria publicação, a que deu o nome The Stylus, mas faltou sempre o capital necessário.Em 1836 casou com Virgínia Clemm, uma prima de 13 anos. A família passou por graves dificuldades económicas devido à precariedade dos rendimentos de Poe. Em 1847, Virgínia, tal como a mãe do autor, morreu de tuberculose, após graves episódios hemorrágicos. Edgar Allan Poe morreu, em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas, em 1849. A  sua obra encontrou admiradores entusiásticos em Rimbaud, Verlaine, Valéry, Mallarmé e Baudelaire, que lhe chamava seu irmão artístico. Poe defendia  o primado da beleza e da imaginação sobre a razão e afirmava a impossibilidade do épico. Considerava a poesia uma criação rítmica da beleza. Os conceitos de “atmosfera”, da espontaneidade imaginativa, da estranheza, enquanto elemento do belo, da perversidade e do horror antecipado são marcantes na sua obra. Poe é modelo declarado de Mário de Sá-Carneiro. A sua influência é sobretudo visível nos contos, na utilização do suspense e nas histórias de duplos. O entrecho de Incesto lembra «Ligeia» e«Eleonora» de Poe. Incesto, A Confissão de Lúcio, Eu-Próprio o Outro, Ressurreição, A Grande Sombra são histórias de duplos que se ligam ao conto «William Wilson». Edgar A. Poe está, de igual modo, presente em Fernando Pessoa que traduziu os poemas «The Raven» (Athena, vol. I, nº1, Outubro, 1924), «Annabel Lee» (Athena, vol.I, nº4, Janeiro, 1925), «Ulalume» (Athena, vol. I, nº4, Janeiro, 1925). Deixou ainda esboços de tradução dos poemas «The City in the Sea» e «For Annie». Encontram-se, nos projectos de Pessoa, listas de poemas e contos de Edgar Allan Poe, a traduzir e a publicar. Com o título geral de Contos de Raciocínio, surgem  “O Escaravelho de Ouro”; “Os Assassínios na Rue Morgue”; “O Caso de Marie Roget” e “A Carta Roubada”. Na apresentação dos contos  «William Wilson» e «O Baile das Chamas», publicados em O Notícias Ilustrado (16 de Setembro de 1928), Pessoa faz uma breve biografia do autor americano e menciona as suas influências: Como poeta procedeu um pouco, superficialmente e no começo, de Byron; muito e profundamente, de Coleridge e da corrente chamada do «maravilhoso» no movimento romântico (Fernando Pessoa, Crítica, Ensaios, Artigos e Entrevistas, p. 213). Pessoa considera o aspecto mais notável de Poe a justaposição de uma imaginação vizinha da vesânia com um raciocínio frio e lúcido (ibid. 214). Como novelista, considera que deixou várias obras frouxas e que, como crítico, nada fez de profundo. Os seus melhores poemas, no entanto, revelam uma sugestão imaginativa profunda e um mestria subtil do ritmo (ibid.).Mais adiante afirma  que, nos contos “de raciocínio”, não apareceu ainda seu igualereconhece-lhe o papel inovador na criação do conto policial e do romance pseudo-científico. Segundo Pessoa, todos os romances policiais modernos teriam descendido de «O Escaravelho de Ouro» («The Golden Bug») e dos três outros contos com Dupin. Todos os romances pseudo-científicos nasceriam da Extraordinária Aventura de um tal Hans Pfall e de outros contos análogos. Pessoa compara ainda Poe a Sá Carneiro, cuja intuição do Mistério era, talvez por uma razão de raça,  mais completa (ibid.). No ensaio  Erostratus, Pessoa utiliza Poe como exemplo de génio e talento, pois possuía grande capacidade de raciocínio e o raciocínio é a expressão formal do talento. No mesmo ensaio, considera-o um caso de génio associado a um elemento (raciocínio) da inteligência, embora critique a sua aptidão filosófica (uma ficção gerada por sonhos) e a sua crítica, pois se constrói a partir do raciocínio. Num artigo publicado no Diário de Lisboa (1 de Março de 1935), com o título «Dois poetas. Como Fernando Pessoa vê António Botto. O seu lirismo e a sua paixão», Poe é referido nos seguintes termos: …prodigioso raciocinador, escreveu poemas admiráveis, sem sombra de raciocínio, porque sabia raciocinar: o raciocínio ausente está presente no facto de esses poemas não serem, como em substância são, simples loucura (Fernando Pessoa, Crítica, Ensaios, Artigos e Entrevistas, p.516). Considera-se que Poe criou o policial moderno com «The Murder of the Rue Morgue», onde se estabeleceram alguns aspectos que ainda hoje perduram: o crime enigmático, o investigador de lógica infalível e hábitos sedentários (Chevalier Auguste Dupin), o amigo que assiste aos malabarismos intelectuais do grande detective com uma incompreensão semelhante à do próprio leitor. Fernando Pessoa, que, tal como Poe, apreciava charadas e criptogamas, escreveu policiais onde se nota alguma influência do autor americano. A personalidade literária Charles Robert Anon registou, num diário referente a 1906, a escrita de um conto com o título «The Stolen Document», que pretendia ser a correcção de «The Purloined Letter» e apresentar, pela boca de um descendente de uma das personagens, a verdadeira versão dos acontecimentos. Edgar Allan Poe, the greatest of all  North-Americans¸ como é designado no texto («The Stolen Document», Ana Maria Freitas, www.portalpessoa.org), transmitira uma versão errada do que acontecera, por acreditar em Dupin. À posteridade deve ele o repor de uma verdade que não prejudica Dupin (he keeps all his marvellous reasoning ), mas que irá fazer justiça à figura do vilão do conto de Poe. Esse vilão, o Ministro D-, é um homem da corte e um hábil intrigant, conhecedor dos métodos e processos mentais dos polícias franceses com quem joga ao gato e ao rato. É na figura paradoxal do ministro D-, apresentado como homem de génio, que Pessoa irá centrar o seu enredo. O objectivo do narrador é repor a verdade histórica e fazer justiça a essa figura. O conto «The Stolen Document» surge incluído numa lista das Detective Stories, atribuídas a Horace James Faber. No ensaio Detective Story, Fernando Pessoa refere o papel desempenhado por Poe na criação e desenvolvimento do género policial. Considera «The Purloined Letter» um exemplo perfeito do policial dedutivo, onde os factos são colocados ao leitor e ao detective, que resolve o problema sem sair da sua poltrona. Critica, no entanto, a utilização do elemento coincidência, que considera desastroso numa história policial. Pessoa dá, como exemplo, o conto «Murders in the Rue Morgue», em que vários estrangeiros, falando diferentes línguas, passam pela casa em que o crime é cometido. Pessoa planeava dedicar um dos capítulos do seu ensaio Detective Story a Edgar Allan Poe. Em 1914, numa nota enviada a Armando Cortes-Rodrigues com uma lista dos autores que o influenciaram, Pessoa reconhece a influência dos contos de Poe nos anos 1904 e1905 e da sua poesia, no período de 1905 a 1908.

 

 

Oxford Concise Companion to English Literature, ed. Margaret Drabble e Jenny

Stringer, Oxford, Oxford University Press, 2003.

Pessoa, Fernando, “Edgar Allan Poe”, in Crítica, Ensaios, Artigos e Entrevistas,

ed. Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000.

The Oxford Companion to Crime & Mystery Writing, ed. Rosemary Herbert,

Oxford, Oxford University Press, 1999.

 

 

Ana Maria Freitas