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Criacionismo

CRIACIONISMO

 

O criacionismo, tal como o entendemos aqui, identifica o pensamento de Leonardo Coimbra (1883-1936), a partir da publicação do seu livro de estreia, O Criacionismo (Esboço de um Sistema Filosófico) (1912), que foi outrossim a dissertação com que o autor se apresentou a concurso para  professor assistente do grupo de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Assim como assim, no momento da estreia, acontecida aos vinte e oito anos, o autor era já visto no meio portuense como pensador original, pois desde 1906 dera à estampa em publicações periódicas ensaios e estudos que foram firmando a sua reputação de prosador de ideias, capaz de desenvolver em sentido próprio as inquietações do livre pensamento imediatamente anterior, de Pedro de Amorim Viana (1823-1901), autor da Defesa do Racionalismo e Análise da Fé (1866), a Sampaio Bruno. Os seus textos de 1907 a 1909, aparecidos em duas publicações anarquistas portuenses, A Nova Silva e A Vida, surgem tocados por uma ânsia de liberdade, uma veemência de tom, uma agilidade de pensamento, um frémito de amor, que, não recuando diante de nenhuma circunstância, preconceito ou fronteira, se fazem já então as marcas reconhecíveis do criacionismo posterior. É neste período de génese que Leonardo elabora uma nova terminologia crítica, a do paganismo espiritualista ou transcendente, que, servindo ao autor para ler o saudosismo dos poetas da nova escola saudosista, será retomada e desenvolvida pelo Fernando Pessoa do transcendentalismo panteísta.

O criacionismo surge assim como uma síntese desenvolta e generosa das primeiras preocupações de Leonardo. Trata-se de um pensamento vivo, antidogmático, que parte de um entendimento experimental da razão, aberto à intuição e à imaginação; nele o acto de conhecer não se resume a um processo fechado de raciocínio mental, antes se desenvolve num acto aberto aos sentidos e à imaginação. Para o criacionismo de Leonardo Coimbra a realidade não está criada; só o pensamento, o pensamento pessoal, dinâmico, inesgotável, aberto e livre, a cria ou vai criando. Daí o criacionismo do pensamento de Leonardo, sinónimo de experimentalismo, de antidogmatismo, de optimismo, de confiança no papel do homem no mundo, de abertura a todas as faculdades humanas, sensitivas ou mentais. O criacionismo opõe-se assim àquilo que Leonardo chama o coisismo, quer dizer, as visões fechadas, dogmáticas, fatalistas, que dão a realidade, seja ela moral, social ou material, como determinada e acabada, antes mesmo do pensamento a abordar.

O pensamento dinâmico do criacionismo, muito atento às operações poéticas do espírito, às quais conferia um dinamismo criacionista em estado bruto, refutava assim, na sua síntese dedutiva, todos os sistemas filosóficos conhecidos, do materialismo ao monisno, do naturalismo ao cientismo, ressalvando apenas o evolucionismo criador de Bergson, com o qual o pensamento de Leonardo apresenta óbvia afinidade. O criacionismo leonardino afastava-se deste modo do pensamento dominante da época, em primeiro lugar do positivismo cientista do escol republicano português, não porque o criacionismo leonardino fosse anticientífico, mas porque via na ciência um fruto da experiência, sempre questionável, e não uma solução definitiva do real, conduzindo a formalismos mecânicos, expressões vulgares de um pensamento coisificado. Este ponto ajuda a explicar a total incompreensão – e logo a má vontade – do júri da Faculdade de Letras de Lisboa, presidido por Silva Cordeiro, que examinou a dissertação de Leonardo Coimbra.

A empatia de Leonardo pelas operações poéticas do espírito mostrava um autor atento à poesia, na qual via o agente mais eficaz do pensamento criacionista, capaz de contraditar sem esforço o saber do pensamento coisista. Este interesse acabou por deixar reflexos no livro de 1912, onde existem notáveis passagens interpretativas sobre os principais poetas portugueses do tempo. Mas muito mais importante do que essa atenção, exercendo o seu poder de observação a partir do exterior, numa crítica envolvente mas ainda assim distanciada, é a experiência verbal do discurso criacionista. Desenvolve-se este por caprichosas e sugestivas metáforas, imagens e alegorias, num processo analógico cerrado e constante que se estende numa sucessão quase ininterrupta de ardentes epifanias verbais, que recorrem muito mais aos saltos abruptos do transformismo dinâmico e até alucinatório da imaginação do que aos passos comuns e frios do pensamento lógico explicativo.

Neste sentido, o livro de estreia de Leonardo pode ser considerado um livro poético, com filiação directa na estilística mais característica do saudosismo; mais do que um sistema, um pensamento transmissível, uma estrutura de saber, uma teoria do conhecimento, desdobrando-se numa antropologia, numa cosmologia, numa teologia, o criacionismo de 1912 é para ser encarado como um clarão verbal do pensamento, assistemático e pessoal, que, independemente da sua aproximação raciocinante ao real, se posiciona como experiência ou apoteose poética. A própria formalização do texto leonardino, em parágrafos quase versiculares, com um ritmo métrico veemente e muito bem balanceado, contribui vastamente para lhe dar uma natureza próxima do poema, do poema metafísico, como chamou José Marinho a um dos livros de Leonardo. Compreende-se que assim seja; se a derradeira intuição sófica do pensamento de Leonardo é um real vivo e livre, sempre aberto à criação, que nada na íntima verdade pode condicionar, então o pensamento, se não quiser cousar, precisa do poema. É porventura o relampagueante brilho desta visão, adjunta à capacidade de lhe dar forma numa linguagem tocante, que levou Fernando Pessoa a protestar a sua alta veneração ao criacionismo.

Depois do livro de 1912, Leonardo deu, sem rupturas, continuidade ao criacionismo num modo que tanto têm de poético como de reflexivo. Assinale-se o que há de intelectivo em livros como O Pensamento Criacionista (1915), fruto das lições dadas na Universidade Popular do Porto em Abril e Maio de 1914, ou A Razão Experimental (Lógica e Metafísica) (1923) e o que há de alta vibração poética em livros como A Morte (1913), A Alegria, a Dor e a Graça (1916), A Luta pela Imortalidade (1918) e sobretudo em Adoração–Cânticos de Amor (1921), que surge como um hino apolíneo à beleza e à carne, tocando os picos ardentes do mais alto e eloquente lirismo.

No quadro da fundação da Renascença Portuguesa, onde emergiram as tensões  entre o grupo de Lisboa e o do Porto, que levaram logo depois à duríssima polémica entre o racionalismo de Sérgio e o saudosismo de Pascoaes, o criacionismo permaneceu solidário com este último. Criacionismo e saudosismo haviam nascido no mesmo nicho ecológico de ideias, alimentando-se em simultâneo do mesmo meio e ganhando afinidades fortes de estilo e natureza. Pascoaes, depois do criacionismo, viu por isso em Leonardo o filósofo do saudosismo e Leonardo sentiu naquele o poeta do criacionismo.

Ainda assim, saudosismo e criacionismo não são coincidentes, apresentando diferenças, que, à medida que o tempo foi diferenciando os dois irmãos, se foram revelando cada vez mais substanciais, se não antagónicas. O que havia de analógico, de paradoxal, de abstracto ou de transcendente no saudosismo de Teixeira de Pascoaes desenvolveu-se com a prosa hagiomáquica dos últimos anos como niilismo da origem, como anarquismo dos princípios ou como ateísmo divino, porventura a expressão mais complexa a que chegou o pensamento português do século XX, enquanto o humaníssimo e muito concreto impulso libertário do criacionismo evoluiu, pelo próprio amplexo de tudo compreender e aceitar, para formas cada vez mais reconhecíveis, mas não por isso menos vivas, de humanismo cristão. Esta divergência de caminhos desacordo fecundo entre dois braços do mesmo tronco ficou exarada num dos estudos finais de Leonardo, que morreria poucos meses depois de o escrever, a longa e interrogativa recensão ao São Paulo (1934) de Pascoaes.

 

Bib: ALVES, Ângelo, O Sistema Filosófico de Leonardo Coimbra. Idealismo Criacionista, Porto, 1962; Leonardo Coimbra. Filósofo da Liberdade e do Amor Infinito, Lisboa, Fundação Lusíada, 2003; Leonardo Coimbra, V. N. Gaia, Estratégias Criativas, 2007; GOMES, Pinharanda, A Teologia de Leonardo Coimbra, Lisboa, 1985; “Criacionismo”, in Dicionário de Filosofia Portuguesa, Lisboa, Dom Quixote, 1987, pp. 64-8; MARINHO, José, O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra e outros Textos [reedição, muito acrescentada, de O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra, Porto, 1945], org. Jorge Croce Rivera, Lisboa, IN-CM,  2001, pp. 622.

 

 

 

António Cândido Franco