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Carta sobre a Génese dos Heterónimos

Nome por que é conhecida uma carta de FP a Adolfo Casais Monteiro, datada de 13 de Janeiro de 1935, poucos meses antes de morrer.   A carta foi publicada parcialmente em 1937 no nº 49 da revista presença.  As partes inéditas foram publicadas pela primeira vez em 1951 por João Gaspar Simões em Vida e obra de Fernando Pessoa.   Considera-se normalmente que contém uma das melhores descrições que FP fez do fenómeno da heteronímia, incluindo uma descrição do chamado “dia triunfal”,  o dia 8 de Março de 1914, em que FP declara ter escrito mais de trinta poemas (nomeadamente de “O Guardador de Rebanhos”) “numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir.”

 

A carta responde a uma carta de CM datada de 10 de Janeiro, em que, depois de lhe dar os parabéns pelo dinheiro recebido por um prémio literário atribuído a Mensagem, CM reage ao facto de Mensagem ter ganho um segundo prémio, embora lamente que o único livro de FP até aí publicado seja esse.  Segundo CM o livro “restringe” o significado da obra de FP.

 

Na primeira parte da carta, FP declara que não vê quaisquer motivos ocultos nas reservas de CM  (“não procuro caves nos andares nobres”) e explica que a publicação de Mensagem (“que não foi feliz”) se deveu a uma série de acasos.   Na segunda parte da carta FP responde a três perguntas de CM que segundo ele dizem respeito ao plano de publicação das suas obras, à génese dos seus heterónimos e ao ocultismo.    Em relação à publicação das suas obras, declara que depois de Mensagem tenciona fazer publicar o conto “O Banqueiro Anarquista” (que se propõe também traduzir para inglês), e um “grande volume dos poemas pequenos do Fernando Pessoa ele-mesmo.”    Manifesta-se pouco optimista àcerca da publicação de colectâneas de poemas de Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.   Em relação à genese dos seus heterónimos, FP atribui-a a um “fundo traço de histeria” e depois propõe-se fazer a sua “história directa.”  Tal história começa com a referência a “uma tendência para criar em meu torno um mundo fictício.”   Continua em 1912 com o nascimento de Ricardo Reis (“veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã”) e depois, em 1914, com “uma partida ao Sá-Carneiro” (“inventar um poeta bucólico, de espécie complicada”) que, após o “dia triunfal”, dá origem ao “aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro.”    Finalmente, aparecido Caeiro, afirma FP, “tratei logo de lhe descobrir . . . uns discípulos”, entre os quais “o Ricardo Reis latente” e Álvaro de Campos.   A este conjunto de heterónimos chama FP “uma coterie inexistente”, que inclui factos biográficos, interacções entre heterónimos e poemas proto-históricos de Álvaro de Campos.   Em relação a ocultismo, FP manifesta a sua crença “na existência de mundos superiores ao nosso” mas exprime dúvidas quanto à possibilidade de uma “comunicação directa com Deus.”    Descreve “três caminhos para o oculto” (o mágico, o místico e o alquímico), o terceiro dos quais lhe parece preferível, e declara que não pertence a qualquer ordem iniciática.    A carta termina com um longo post-scriptum em que, entre outras coisas, autoriza CM a citar qualquer passo da carta excepto o parágrafo sobre ocultismo (e, presumivelmente, o post-scriptum).

 

Uma parte importante da posteridade da carta consiste nas variadas espécies de desmitificação a que foi sujeita.    As suas discussões são muitas vezes indistinguíveis de discussões gerais do fenómeno da heteronímia e, para quase todos os efeitos, foi este o aspecto da carta que despertou a maior parte da atenção crítica.  Foi também o que excitou mais desagrado e incredulidade entre a primeira geração dos leitores de FP .    Jacinto Prado Coelho considerou o exemplo de FP “profundamente dissolvente, à luz da pedagogia humanística, pela desagregação da personalidade, não só deliberadamente prosseguida como preconizada.”   Mário Sacramento deixou-o por conta de “um clima de retinto pensamento-mágico” característico de  “ideologias pré-fascistas.”   João Gaspar Simões concluiu que “por não saber harmonizar a sinceridade que a poesia exige com  insinceridade que viver implica é que FP lançou mão, afinal, do expediente insincero dos heterónimos.”   Num registo diferente, e muito mais tarde, Ivo Castro observou que os manuscritos existentes de “O Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro parecem excluir a possibilidade de que, ao contrário do que FP afirma na carta, o poema tenha sido composto substancialmente num mesmo dia.  

Pelo contrário, logo a 17 de Janeiro de 1935, CM respondeu a FP, confessando-se “infinitamente grato por não me ter achado indigno das suas confissões”  e acrescentando que “v. disse bem mais do que eu jamais ousaria esperar!”    Em 1973, num livro dedicado à memória de CM, Eduardo Lourenço, argumentou contra aquilo a que chamou, usando aliás uma distinção de FP,  reduções psicológicas, literárias e sociológicas da  heteronímia, que atribuiu, respectivamente, a Gaspar Simões, Prado Coelho e Mário Sacramento.   “Talvez que antes de questionar FP e de obrigá-lo a explicar-se”, escreveu, “se deva começar por aceitá-lo na sua estranheza, real ou aparente . . . em vez de querer, antes de tudo, reduzi-la.”     Esta atitude representa uma diferença importante, nomeadamente no que implica quanto à leitura da carta de 1935, na medida em que pressupõe ser ocioso argumentar contra FP.    A carta, para Lourenço, não responde a perguntas, e portanto às perguntas de CM, e representa antes “com relevo mitológico o movimento mesmo da imaginação de FP.”

A diferença entre estas duas atitudes, que pode explicar duas grandes famílias de apologética e pathos na história da crítica de FP, não explica todavia que aquilo a que Lourenço chama a “imaginação” de FP tal como se manifesta na carta se caracterize por uma relação complexa entre acontecimentos e acções, e nomeadamente acções deliberadas.     Uma das dificuldades da carta, de facto, consiste em nela coexistirem explicações da poesia de FP como a consequência de uma série de acontecimentos a que FP é estranho (acasos e aparições) com a explicação da poesia de FP como a consequência de uma série de acções deliberadas, quer por parte de FP, quer por parte daqueles que FP imagina que o irão ler.   O mesmo FP que se descreve como “incapaz de premeditação” é aquele que justifica a necessidade de fazer três cópias químicas da carta.   O FP que afirma que “sou um dos poucos poetas portugueses que não decretou a sua própria infalibilidade” e em quem apareceu Alberto Caeiro é o que fala das “possibilidades europeias” de “O Banqueiro Anarquista” e alude duas vezes, de uma forma não completamente auto-deprecatória, à possibilidade de ganhar o prémio Nobel.      É relevante a este propósito referir que a carta a CM é um dactiloscrito atravessado por alusões à dactilografia.   Algumas sugerem que a dactilografia é uma forma de oralidade não literária (“escrever à máquina é para mim falar”, “escrevendo directamente, tão depressa quanto a máquina mo permite . . . vou-me servindo das expressões que me ocorrem, sem olhar a que literatura haja nelas”) e também que tudo o que é mecânico é automático e não-intencional.   Outras porém revelam uma preocupação deliberada com a posteridade da carta, que se traduz justamente na importância que a dactilografia tem na produção de cópias daquela, bem como no peso que FP nela dá ao destino de tais cópias.   As cópias, sugere FP,  vão “possivelmente” ser precisas a CM “para qualquer fim” e estão “sempre às suas ordens.”

Os fins que FP parece ter em vista, como escreve a CM, são um “qualquer estudo seu, ou outro fim análogo.”    CM foi de facto um dos primeiros críticos a ter satisfeito tais fins e, como Lourenço na geração seguinte, um dos mais famosos.   Parece por isso razoável imaginar que do “movimento mesmo da imaginação de FP” faz parte não apenas a possibilidade mas também o objectivo de ser tratado, enquanto poeta, de determinados modos.    Quando Lourenço observa que “não temos de alinhar obrigatoriamente FP pelos seus críticos, baste-nos o aproximarmo-nos da sua própria luz” a disjunção que apresenta não é por isso exactamente verdadeira.   No caso de FP tratar-se-ia de um poeta para quem a “própria luz” consiste também em determinar a sua posteridade crítica e portanto um certo alinhamento dos seus críticos.   A obscura carta de Janeiro de 1935,  bem como a própria ideia de uma “génese da heteronímia, são meios de notoriamente o fazer.  Enquanto ideia e carta estiverem às nossas ordens, e enquanto a relação crítica com a heteronímia for determinada pela alternativa entre desmitificação e aceitação, FP permanecerá essencialmente o poeta que sempre tencionou ser.

 

 

Miguel Tamen