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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Carlos Queirós (1907-1947)

Carlos Queirós nasceu em Lisboa e morreu em Paris.  Em vida, deu a público duas colectâneas poéticas, Desaparecido, 1935, e Breve Tratado de Não-Versificação, 1948. Postumamente, foi publicado, em 1989, um volume de dispersos e inéditos, sob o título  Epístola aos Vindouros e Outros Poemas. Deixou dispersos, com o seu próprio nome ou sob pseudónimo, textos em prosa abrangendo matérias tão diversas como as críticas literária e cinematográfica, o turismo e a história de arte, em revistas do período compreendido entre a segunda metade dos anos vinte e os finais da década de 40, algumas das quais, aliás, ele próprio dirigiu, como Panorama e Litoral. Teve, além disso, a seu cargo programas de índole cultural na então Emissora Nacional.

     Carlos Queirós é um dos autores, no âmbito do Segundo Modernismo, que melhor ilustram a existência de uma continuidade entre o Simbolismo e o Modernismo. Representará mesmo o que Jorge de Sena considerou a vertente pós-simbolista do Modernismo. Com efeito, não apenas encontramos amiúde na sua lírica  aquela ambição que foi a dos simbolistas de uma aproximação entre a poesia e a música, sensível, por exemplo, em “Barcarola”, de Desaparecido ( «Um violino geme/ Em um barco singrando/ No meu sonho, tão brando/ Como a curva do leme.// [...]»   ), como também deparamos nela com o ideal que foi o  da tradição simbolista de eternizar o efémero através da forma, através do poema como «ícone verbal» ( cf. o poema nº 15 do Breve Tratado...: «Rítmicos dedos desenrola/ No cerne azul da noite incerta./ A mão atenta, a mão alerta/ Para colher a flor liberta/ Que do efémero se evola.» ). Um outro elo com essa tradição, estabelece-o ele através de Rimbaud, convocado para a epígrafe que precede Desaparecido, e homenageado numa ode vinda a público no nº 2 da revista Aventura, em 1942, em que, por intermédio de um esquema de inspiração hegeliana, o poeta francês ajudará a definir a relação do próprio C. Queirós com a modernidade:       «( Moderno? Anti-moderno? – Transmoderno! )».

     Seja como for, o Modernismo moderado que foi o deste colaborador assíduo da presença não o impediu de mostrar exuberantemente o seu anti-academismo, como se pode ver em “Epigrama”, dado à estampa no nº 37, de Fevereiro de 1933, da revista coimbrã ( «Se de Camões o Espírito, algum dia,/ A pátria visitasse,/ Quando na douta Academia entrasse.../ ( Para ouvir o que nela se dizia ),/ Confuso, pensaria: -- Que erro enorme!/ Como eu julguei ser esta pifieza/ Aquela antiga pátria portuguesa/ Que me deixou morrer à fome!...» ) ou de manifestar a sua recusa tão modernista de submissão às regras, às convenções formais, em “Anti-soneto” ( «O nosso drama de portugueses,/ O nosso maior drama entre os maiores/ Dos dramas portugueses,/ É este apego hereditário à Forma:/ Ao modo de dizer, aos pontinhos nos ii,/ Às vírgulas certas, às quadras perfeitas,/ À estilística, à estética, à bombástica,/ À chave de ouro do soneto vazio/ -- Que põe molezas de escravatura/ Por dentro do que pensamos/ Do que sentimos/ Do que escrevemos/ Do que fazemos/ Do que mentimos.» ), ou ainda de experimentar insólitas rimas assentes em vogais mudas, no poema nº 41 do Breve Tratado... ( «Alma repleta de/ Música, flores e luz/ -- Eis o poeta, se/ Não suspeita de que/ Tem essa glória e cruz.» ).

     Amigo íntimo de Fernando Pessoa e um dos primeiros, na geração que se seguiu à do Primeiro Modernismo, a acusar o seu influxo, Carlos Queirós fez muito, em Lisboa, pela ligação entre os sobreviventes do Orpheu e das revistas que o continuaram e a «folha de arte e crítica» que começa a publicar-se em Coimbra, em Março de 1927. Um dos sinais mais evidentes desse influxo, que, todavia, não faz propriamente do autor de Desaparecido  um discípulo de Pessoa, vamos encontrá-lo num poema publicado no número inaugural da revista Solução Editora, em finais dos anos 20, “Canção Fatigada”: «Semeias cantando,/ Feliz camponesa;/ E o ritmo brando/ De estares semeando/ É a minha tristeza.// Tu cantas a hora/ Tão triste e vazia/ Do sol ir-se embora/ E eu choro o outrora/ Da minha alegria.// Se ao teu avental/ Tu levas a mão,/ De tão natural/ Teu gesto faz mal/ Ao meu coração;// D’ele tiras o trigo/ Que lanças à terra:/ E eu penso comigo/ Que a terra é o abrigo/ Dos mortos que encerra.// Eu tudo o que faço/ Não é como quero:/ Um gesto, ou um passo,/ Tem sempre embaraço/ É raro e sincero.// Em ti nada pesa;/ E o estares semeando/ Tem tanta beleza/ -- Feliz camponesa/ Que lidas cantando...». O que há de curioso neste texto, dedicado à memória de Caeiro, é não tanto o ser uma homenagem ao poeta bucólico de espécie complicada a quem coubera na encenação heteronímica a autoria de  O Guardador de Rebanhos como o ser uma forma, indirecta, mas não menos perceptível, de homenagem ao também bucólico ortónimo do poema “Ela canta, pobre ceifeira”. Carlos Queirós, consciente de que no seu poema existiam «versos seminais nas suas [ de Pessoa ] emoções», haveria de a ele aludir, embora sem expressamente o identificar,  no texto que à memória de Fernando Pessoa dedicou no nº 48 da presença, de Julho de 1936, “Carta à memória de Fernando Pessoa”. Nesse mesmo número da «folha de arte e crítica» apresentaria ele também, pela primeira vez, a público “fragmentos de algumas cartas de amor” que Fernando Pessoa dirigira a sua tia, Ophélia Queirós. A grande admiração que tinha por Pessoa viria a exprimi-la poeticamente no texto que deu a lume no número inaugural da revista Litoral em Junho de 1944: «Era bom encontrar o amigo/ No Café, onde estava a olhar/ Com um gesto elegante e ambíguo/ Para o fumo a sumir-se no ar.// A poesia era o tema dilecto/ Da conversa que o tempo engolia./ O real, o preciso, o concreto/ Nem sabiam que a gente existia.// Nada era por nós maculado./ Nem um só sentimento era fosco:/ Porque havia outra luz, outro lado,/ E o mistério morava connosco.// Tudo isto foi antes de Orfeu/ Ter levado o encanto consigo./ Esse amigo está vivo – e morreu./ ( E de mim, que dirá esse amigo? )».

             

Bibliografia

Prefácio de David Mourão-Ferreira a Desaparecido. Breve Tratado de Não-Versificação, Lisboa, Edições Ática, 1984. Em Apêndice, “Opiniões e Testemunhos sobre Carlos Queirós” de Fernando Pessoa, Vitorino Nemésio, José Gomes Ferreira, João Gaspar Simões, Pedro de Moura e Sá, Luís Forjaz Trigueiros, António Ferro e José Régio; prefácio de David Mourão-Ferreira a Epístola aos Vindouros e Outros Poemas, Lisboa, Edições Ática, 1989.

 

 

Fernando J.B. Martinho