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Cancioneiro de Pessoa

Título de uma colectânea de poemas que Fernando Pessoa planeou publicar. O título surge em diversos projectos. Num deles (espólio de Pessoa na BNP, 48B-25), indica que  os poemas de Cancioneiro se deveriam distribuir por vários «livros», agrupando «as simples canções», já que reservaria outro tipo de poemas para outros volumes, Itinerário e Poemas Portuguezes, por exemplo. Em vários outros planos, encontramos listagens dos poemas que constituiriam o(s) livro(s), precisando mesmo, um deles, o conteúdo do Livro I (48-35), com a indicação de se tratar de 50 canções, e um outro, o conteúdo dos  Livros I e II (48-39). Compulsando essas listagens, feitas certamente em momentos muito diferentes, pode verificar-se que o poeta muda muitas vezes de opinião quanto à inclusão deste ou daquele poema. De qualquer modo, há poemas que figuram em todas as listas, como é o caso, por exemplo, de «Canção de Outono», «A Ceifeira», «O Aldeão» (título que, por vezes, atribui ao conhecido «Ó sino da minha aldeia», que também é referido), «Qualquer música», «O carro de pau», «Marinheiro-monge», «Là-Bas» (ou «Dorme enquanto eu velo»). Num outro plano ainda (48-36), assinala um subtítulo, «Canções de Lisboa», constituído por 7 ou 8 poemas («O Silva», «Transeunte», «Revolucionário Morto», «...Ah dormir tudo!...», «Pequenito Coxo», «Intervenção Cirúrgica», «O Caixão Roto», e «Mater Desiderata», interrogado), com a indicação, entre parêntesis, de se destinar ao 1º ou ao 2º livro de Cancioneiro. Alguns destes poemas, não chegaram a ser inteiramente acabados, como «A um Revolucionário Morto», de 1913 (publicado, pela primeira vez, com algumas lacunas, em 2006), ou «Intervenção Cirúrgica» e «O Caixão Roto» (inéditos). Num texto em prosa, Pessoa expõe o seu pensamento sobre Cancioneiro, definindo-o como «uma colectânea de Canções», sendo uma canção, como escreve, «todo aquele poema que contém emoção bastante para que pareça ser feito para se cantar, isto é, para nele existir naturalmente o auxílio, ainda que implícito, da música. (...) Por isso se não pode chamar canção a um soneto (...). A canção exclui, portanto, tudo quanto se não pode cantar. Não se pode cantar o que é longo; não se pode cantar o que é duro; não se pode cantar o que é rígido e formal. Por isso a canção exclui o poema longo, exclui o poema satírico, exclui o epigrama (...)» (Pessoa, Páginas Íntimas, pp. 427-8). Esta lição pode servir de orientação a quem intentar refazer o projecto de Pessoa, mas de forma alguma se coaduna com a arrumação feita em algumas edições (como uma da responsabilidade de António Quadros e Dalila Pereira da Costa, por exemplo) que incluem em «Cancioneiro» quer os «impossíveis» sonetos, isolados ou em conjuntos, como o que começa por «A criança que fui chora na estrada», quer poemas como «Hora Absurda» ou «Chuva Oblíqua». Pessoa projectou ainda um prefácio para o seu Cancioneiro, da autoria de Álvaro de Campos, de que dispomos alguns fragmentos. Num deles, Campos diz que «fixar um estado de alma, ainda que o não seja, em versos que o traduzam impessoalmente; descrever as emoções que se não sentiram com a própria emoção com que se sentiram – é este o privilégio dos que são poetas, se o não fossem, ninguém os acreditava» (ibid., pp. 428-9). Campos, que se afirma «demasiado amigo» de Fernando Pessoa, considera que há poetas, como é o caso dele, que fazem isso conscientemente e que fazem isso inconscientemente. Num outro fragmento, Campos assume-se como o organizador da obra, informando também que adopta «uma ortografia etimológica extrema», respeitando, assim, o hábito e o desejo do autor.

 

 

Manuela Parreira da Silva