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Cabala

Fernando Pessoa, na sua procura do absoluto, viajou, também, pelos abismos do oculto, cuja atmosfera misteriosa o envolveu com o seu fascínio. Mergulhou nesse mundo da realidade transcendental para o sentir, estudar e perceber melhor. Um olhar de conjunto sobre o que o poeta escreveu acerca destas áreas de meditação e de indagação do sobrenatural revela o variado interesse que estas, nele, despertaram. Por todas se debruçou em busca do conhecimento. Nessa sua caminhada pelos segredos do oculto, Pessoa exprime um desejo de saber fora do âmbito da filosofia, da metafísica e, até, da religião. A sua atracção por estas verdades a poucos acessíveis que, no seu dizer, estão guardadas na extinta Ordem dos Templários onde se considera “iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo” (OPP III 1429), levou-o a analisá-las e estudá-las com profundidade. As numerosas folhas do seu espólio, que se dedicam a estes assuntos, são disso testemunho. Apesar deste seu persistente interesse pelas chamadas ciências ocultas, não podemos falar, relativamente a Pessoa, em estádio gnóstico, já que o percurso do poeta na sua obra-vida nunca foi linear. A sua produção é fruto de um espírito turbilhonante, o que, talvez, justifique os seus imensos projectos sempre inacabados. As suas interpretações da realidade transcendental revelam, por vezes, uma ousadia criativa quando, por exemplo, tenta a aproximação e conciliação de tradições diversas opostas, como a helénica e a cabalística. O seu interesse pelo símbolo, ou seja pela teoria do símbolo, leva-o a estudar e a comentar, ainda que circunstancialmente a ciência da cabala. Mística judaica, condenada pelo judaísmo ortodoxo, a cabala (palavra que em hebraico significa tradição, no sentido de passar a palavra de boca a ouvido) tem sido a fonte para a interpretação dos símbolos. Nela se inspiraram as teorias maçónicas. A tese que defendem é a de que a cada grau maçónico correspondem certos números sagrados. E consideram esses números dotados de propriedades intrínsecas.

O caminho da procura da verdade em Pessoa passa, quase sempre, pelo número três (os homens dividem-se em três categorias; três são os mestres da poesia; três poetas tem o movimento sensacionista; três são os diferentes tipos de império; três são os seus heterónimos; etc.), número cabalístico em que o um se encontra dissociado no dois, princípio da diferenciação dos objectos, e que volta a reencontrar a unidade no número três. A sua tradição lógica é o axioma clássico «Tese-Hipótese-Síntese». Este movimento tríplice, ou lei ternária, que exprime a ordem intelectual e espiritual no homem e no cosmos, é um dos princípios privilegiados pela “Santa Cabala”, tradição de que o poeta se declara, indirectamente, fiel seguidor como atesta a Nota Biográfica queescreveuem1935 e quedefine a sua “posição religiosa: Cristão gnóstico, e portanto inteiramente oposto a todas as igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.” (OPP III 1428). Não se conhece, no espólio pessoano, nenhum projecto de obra sobre a Cabala, Os textos que encontramos com esta indicação são muito poucos e a sua grande maioria é encimada com a indicação Átrio ou Franco-Maçonaria. Facto que se explica por a Cabala ser uma mística numeral judaica. A ciência da Cabala é o meio de que Pessoa se serve para conhecer a natureza interior dos objectos através do seu aspecto exterior: o símbolo e a linguagem simbólica dos rituais esotéricos.

Luísa Medeiros