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Associações Secretas

«Tenho estado velho por causa do Estado Novo», escreve Pessoa numa carta a Marques Matias de 1935 (C II 359), e esta confissão condiz com o que lemos numa carta a Tomás Ribeiro Colaço de 10 de Outubro do mesmo ano, embora os termos variem: «Tenho-me sentido uma espécie de filme psíquico de um manual de psiquiatria, secção psiconevroses» (C II 355). De facto, a crise que atravessa no seu último ano tem também uma razão conjuntural, que se prende com um conflito final da sua obra: Pessoa, que se tornara conhecido pela publicação premiada da Mensagem, livro que corresponde ao momento político nacionalista com um canto altíssimo da história de Portugal, passada e futura, é o autor, simultaneamente, do artigo «Associações Secretas», no Diário de Lisboa de 4 de Fevereiro de 1935 (C 500-513), em que se defende a Maçonaria de um projecto de lei de ilegalização, apresentado à Assembleia Nacional pelo deputado José Cabral. Ora, ambos os gestos, o livro e o artigo, aparecem no espaço público como contraditórios: o nacionalista vs. o internacionalista, o apoiante tácito da ditadura vs. o adepto do liberalismo e da tolerância. Essa insanável contradição torna a polémica em torno do artigo «Associações Secretas», que é referida com alguma mágoa na citada carta a Tomás Ribeiro Colaço, especialmente acerba. Ao ponto de Pessoa ter escrito um esboço de artigo de resposta aos que o atacaram, em que tenta provar que, em vez de oposição entre as duas publicações, há perfeita adequação – apelando ao «simbolismo templário e rosicruciano» (PIAI 434) de Mensagem para justificar a sua defesa da Maçonaria como associação secreta ou ordem iniciática, e, sobretudo, para vincar a ideia de tolerância, que neste fragmento afirma pertencer ao âmago do rosicrucianismo. Existem também publicados (R 405-424) outros esboços para um opúsculo maior, com a edição integral e corrigida do artigo, acrescentada de notas e de comentários sobre a polémica nos jornais. 

O artigo é retomado em versão abreviada num folheto, editado nesse mesmo ano pelo Grande Oriente Lusitano, sob o título A Maçonaria Vista por Fernando Pessoa

 

 

 

Fernando Cabral Martins