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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

António Sérgio (1883-1969)

Ensaísta, pedagogo e pensador, foi um dos intelectuais mais empenhados na educação cívica e democrática do país, advogando, ao longo de toda a sua vida, uma reforma das mentalidades e das instituições. As reformas para que aponta, desde o seu 1º volume de Ensaios (1920), assentam no fomento do cooperativismo como forma de pensar e de agir; na introdução da problemática sociológica na escrita da História; na revolução da Escola, alicerçada numa pedagogia activa, estimuladora da reflexão crítica e filosófica «a partir da ciência»; na criação de uma consciência cívica e democrática e de uma opinião pública esclarecida; na abertura do país à Europa; no exercício da política norteado por princípios éticos. Espírito racionalista, de matriz iluminista, Sérgio acredita no poder da Razão como motor de transformação do homem e da sociedade. É, pois, em prol desta transformação que se bate, em várias frentes: funda a revista Pela Grei (1918), colabora na Águia e na Seara Nova, dirige a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, escreve uma nova História de Portugal (1929), funda a Junta Propulsora dos Estudos, cria o ensino para deficientes e o cinema educativo, difunde o método Montessori; mas intervém também na luta política, pugnando sempre pela democracia e por um socialismo de tipo associativista e anti-marxista. É natural, pois, que Sérgio tenha sido forçado ao exílio, depois do golpe militar, em 1927. Regressa, porém, em 1933, não deixando, desde então, de combater o regime de Salazar, e vindo a apoiar, em 1958, a candidatura de Humberto Delgado. Dão conta desse combate os seus Diálogos de Doutrina Democrática, reunidos no volume Democracia (1974), que com os 8 volumes de Ensaios (1920-1958), constituem a parte mais importante da sua extensa bibliografia. Mas António Sérgio é também um polemista nato. Em 1912-1914, envolve-se com Teixeira de Pascoaes, a propósito da orientação tradicionalista que este imprime à revista Águia,órgão da Renascença Portuguesa, e contra o saudosismo que Sérgio interpreta como um nacionalismo estético-psicológico-político, místico e decrépito. É a propósito desta polémica que os nomes de Sérgio e Pessoa, pela primeira vez, se cruzam. Pessoa acabará também por se distanciar do saudosismo, adoptando uma atitude estética oposta, mas é nas páginas da revista que anuncia, em 1912, o seu super-Camões, anúncio considerado por Sérgio como um delírio digno de Rilhafoles, por ser, como lhe parece, sinal de uma «revivescência» do espírito sebastianista (Correspondência para Raul Proença, Lisboa: Dom Quixote, 1987, p.35). Pessoa promete, em carta a Álvaro Pinto (25-5-1914), escrever um panfleto sobre as críticas à Renascença e tratar do caso António Sérgio, o que não virá a acontecer. Esta polémica antecipa uma outra, em 1924-1925, na qual Sérgio se insurge violentamente contra Carlos Malheiro Dias, pela sua Exortação à Mocidade, onde o «mentecapto» D. Sebastião é apresentado como modelo a seguir pela juventude portuguesa. Não se sabe o que terá pensado Pessoa, «sebastianista racional», do anti-sebastianismo visceral de Sérgio, mas data da época um fragmento (Esp. 142-95) no qual o poeta, a propósito do chefe da Esquerda Democrática, José Domingos dos Santos (sobre o qual, como diz, é impossível escrever qualquer coisa), cita ironicamente palavras do «vibrante helenista» António Sérgio sobre o referido político, rematando: «Isto é escrito a sério. O Sr. António Sérgio escreve sempre a sério. Aiai, que é hélas em grego». Mais tarde, num outro fragmento sobre a necessidade de «arejar os princípios republicanos», Pessoa parece redimir-se desta ironia, escrevendo: «Uma vez, na Seara Nova, li um homem inteligente e culto, António Sérgio, tratar a sério, criticando a sério, um sub-lixo como José Domingos dos Santos (…)» (Esp. 111-57). Em 1932, Pessoa responde à pergunta destinada a um inquérito feito por A. Sérgio: «Quais foram os livros que o banharam numa mais intensa atmosfera de energia moral, de generosidade, de grandeza de alma, de idealismo?», por intermédio de José Osório de Oliveira *. Em carta a este amigo, envia a resposta, afirmando a sua maior consideração por Sérgio, que não conhece pessoalmente. No mesmo ano, Pessoa assiste à polémica que opõe J. Gaspar Simões a A. Sérgio. Este, num artigo inserto no nº 286 de Seara Nova, ataca a «péssima psicologia das “faculdades da alma” (resto bafiento da velha escolástica); essa bronca mania dos compartimentos estanques (…)», de que Gaspar Simões faz alarde no seu livro O Mistério da Poesia (1931). E cita o verso de Pessoa, «O que em mim sente  está pensando», em favor das suas asserções, que deixam G. Simões furioso. De facto, apesar disso e se bem que, por sua vez, faça muitos reparos ao capítulo que lhe é dedicado no livro, visando até pontos comuns aos atacados pelo «seareiro», Pessoa aconselha G. Simões a que evite uma resposta ad hominem: «responda como se não houvesse António Sérgio, abstracta e decarnadamente, como se discutisse, em termos geométricos, com Euclides, há muito falecido» (carta de 12-5-1932).  Numa carta posterior (16 de Julho), felicita-o pela resposta a Sérgio, fazendo notar embora a falta de frieza de que dera mostras. Este episódio leva a pensar que Pessoa nunca terá conseguido ultrapassar as divergências ideológicas em relação a Sérgio, apesar do respeito intelectual que este lhe merece.

Bibliografia: Henrique de barros e Fernando F. da Costa, António Sérgio: uma nobre utopia, Lisboa: Ed. O Jornal, 1983; Jacinto Baptista, Sérgio / Pessoa – Encontros e Desencontros, Lisboa: Quimera, 1992.

 

 

Manuela Parreira da Silva