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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

António Mora

Fernando Pessoa é o maior poeta português do século XX e um dos maiores da Modernidade europeia. Contudo, a sua maior genialidade estará, porventura, na criação/construção (mítica ─ «Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade» (OAM, I, 22, p.109) do theatrum mundi heteronímico («fragmentarismo sistemático»). O Dr. António Mora é uma delas, juntamente com Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e com o semi-‑heterónimo Bernardo Soares. Todos eles constituem o hiperespaço da máquina de produzir multiplicidades, de «sentir tudo de todas as maneiras», em que «cada canto da minha alma é um altar a um deus diferente» (A.Campos). Cada uma dessas figuras faz parte do «jogo heteronímico». No seu conjunto, estamos perante o que costumamos designar por «quadratura do círculo» heteronímico (de base quadrada – Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Fernando Pessoa – e tendo por ‘hipotenusa’ Bernardo Soares e António Mora). Isto explica que a obra de cada um deles mais não seja do que «os meus livros d’outros», tratando-se, não de «um processo novo em literatura, mas de uma maneira nova de empregar um processo já antigo» (OAM, I,22, p.109).

Mas quem é este “médico da cultura”? António Mora aparece num conto sanatorial intitulado «Na Casa de Saude de Cascaes» (OAM, I, 01-20, pp. 93-105). Este título é anterior ao aparecimento da heteronímia (1912-1914), pois surge num plano de 1907-1910 com a indicação «Contos intellectuaes», junto à tradução do conto de Alexander Search «Um jantar muito original». Por outro lado, e apesar de nenhum dos documentos assinados por António Mora se encontrar datado, sabe-se que este heterónimo o acompanhou até aos últimos dias de vida, sendo referido em dois documentos pertencentes a 1931. Segundo um dos projectos (OAM, I,47, p.155), Pessoa planeou incluir nesse sanatório as várias figuras desse «grupo», o que pressupõe a amplificação da componente sanatorial a toda a heteronímia.

     Neste sentido, este texto ficcional «Na Casa de Saude de Cascaes», na completude dos seus vinte fragmentos constitutivos, desempenha, pelo menos,  um duplo papel no contexto geral da obra pessoana: (1) Em primeiro lugar, fornece-nos  algumas pistas de ordem «biográfica» acerca da figura heteronímica de António Mora (o tal retrato «à la minuta» já referido por Teresa Rita Lopes(PPC, p. 190)); (2) em segundo, e mais importante que isso, dá-nos o quadro teórico sanatorial em que este se movimenta e, por amplificatio, a própria  mania divina da alma em que se integra a heteronímia (sobre o conceito de mania divina aplicado à heteronímia pessoana, cf. NHP, pp. 47-139). Com efeito, se os analisarmos em pormenor e atentarmos para o grupo de projectos em que vem referida esta ficção, verificamos que num deles, no 5-‑83r,  se inclui, para além de uma introdução em forma de entrevista a António Mora e dos «Prolegómenos» de Mora (ponto 4) e de uns «Fragmentos» (ponto 5), as próprias figuras de Alberto Caeiro (ponto 2) e de Ricardo Reis (ponto 3), excluindo-se deste espaço de sã‑loucura, graficamente, por traços separadores a toda a largura da folha, Vida e Obras do engenheiro Alvaro de Campos e o  Livro do Desassossego, escripto por Vicente Guedes, publicado por Fernando Pessoa. A estes dois pontos teremos ainda de acrescentar que deste «núcleo sanatorial» faz ainda parte uma outra ficção intitulada «Na Casa de Saude de Caxias» (PP, pp.227-237), que para além de se situar no mesmo plano do que aí designa por «mania interpretativa», serve para analisar a «crise» da Democracia, que no espaço de  Cascais é peripateticamente (pois «andando pensa-se melhor do que sentado») associada, pelo «misoneísta» e «relembrador da antiguidade», ao despontar do «mundo moderno».

     Apesar de ser nesse conto que se dá a génese dessa figura “sanatorial”, no entanto, encontramos-lhe pegadas  referenciais, de diálogo heteronímico, noutros cinco grupos de textos (OAM, I, 21-43, pp. 107-151), para além dos projectos em que é referido e dos exercícios de assinatura.

     Um outro ponto que importa previamente realçar a respeito da sua contextualização heteronímica, é que, como igualmente já foi inicialmente referido por Teresa Rita Lopes, se é certo que nenhum dos fragmentos de «Na Casa de Saude de Cascaes» e de «Na Casa de Saude de Caxias» está datado, contudo, um dos da segunda série do de «Caxias» está escrito nas costas dos 35 Sonnets editados por Pessoa em 1918; e, por outro lado, o título de «Na Casa de Saude de Cascaes» já aparece num dos planos dos primeiros tempos (1907-1910), sob o título genérico de «Contos intellectuaes», ao lado da tradução do conto de Alexander Search, «Um jantar muito original» (cf. PPC, pp. 190 e 192 nota). Este facto leva-nos a concluir que, se a figura de António Mora não teve a sua epifania devidamente configurada, com os traços que lhe viémos a conhecer posteriormente, logo na génese do projecto sanatorial e, simultaneamente, da génese heteronímica (até porque, como se viu, este projecto ficcional é anterior a essa epifania heteronímica), no entanto, o desenvolvimento desta  «Feira de sophismas» e destes «Paradoxos sem historia» − «Paradoxos» a que Mora dá o nome de «Contratheses» e que assume o seu máximo expoente no subtítulo dos «Fundamentos do Paganismo»: «contrathese à Critica da Razão Pura de Kant e tentativa de reconstruir o objectivismo pagão» (OAM, pp.291-331), mas que também reside no facto de caber a um louco discursar-diagnosticar a doença civilizacional! - (títulos gerais de dois dos planos em que surge indicada a ficção «Na Casa de Saude de Cascaes») −, irá acompanhar Fernando Pessoa do início até ao fim, nas suas características fundamentais de crítica ao que António Mora designa por «morbo mental do Christismo» e em defesa do «Regresso dos Deuses» e, implicitamente, de defesa do Ideal Neo-Pagão (ver FPINP, passim).

 

     Mas passemos de imediato a um estudo mais circunstanciado sobre esse «médico da cultura», «o mais (pessoalmente) original de todos» que surge nesse sanatório de Cascais vestido de toga, recitando «o principio da lamentação de Prometheu no drama de Eschylo» (por certo, a tradução vertida do grego por Ricardo Reis!)  e que teve por nome António Mora, começando, evidentemente, pela edição das suas Obras.

 

A edição crítica das  Obras de António Mora reúne, pela primeira vez e seguindo critérios filológicos e exegéticos rigorosos, toda a produção ensaística deste heterónimo, incluindo fragmentos e projectos por ele assinados ou a ele atribuíveis criticamente, existentes no espólio de Fernando Pessoa.Trata-se de uma edição de 274 documentos (de extensão variável) de um universo de 27.543 peças, respectivamente, distribuídos pelo «Dossier da Obra: Os vestígios de uma existência» (Parte I); pelo corpus crítico (II Parte); e pelos «Textos Suplementares» (III Parte). Do primeiro núcleo (I Parte) fazem parte 71 documentos, distribuídos por sete grupos, respectivamente, «Na Casa de Saude de Cascaes» (OAM, I,01-20),«Aspectos» (OAM, I,21-23),«Notas para a recordação do Meu Mestre Caeiro» (Campos) (OAM, I,24-33), um texto de Thomas Crosse (I,34), «Atena e Programa do Periodico» (OAM, I,35-37), «O Neo-Paganismo Português» (OAM, I,38-43) e os projectos (OAM, I,44-71), a que se acrescentam os exercícios de assinatura que surgem em facsímile. No corpus crítico reúnem-se todos os documentos, de extensão variável, que constituem as Obras de António Mora, constando de  cento e quarenta e dois manuscritos, trinta e oito dactiloscritos e cinco mistos. Dele fazem parte  as seguintes obras:A)Obras Atlânticas a publicar:Athena:Cadernos de reconstrucção pagã (cujo Director seria, precisamente, António Mora), dividido em quatro cadernos,respectivamente, o primeiro incluindo o «Regresso dos Deuses:Introducção à obra de Alberto Caeiro» (OAM, II,1-70); os «Prolegomenos a uma reformação do Paganismo (Teoria Geral do Paganismo Novo) (OAM, II,71-111); e «Os Fundamentos do Paganismo (Contratese à «C. da R. Pura» de Kant e tentativa de reconstruir o objectivismo pagão)» (OAM, II,112-143); o segundo uma «Introdução ao estudo da metafísica» (OAM, II,144-152); o terceiro sem documentos, visto o único encontrado para o projecto «Milton superior a Shakespeare» estar assinado Ricardo Reis; e o quarto caderno sobre um «Ensaio sobre a Disciplina» (OAM, II,153); B)Dissertações, respectivamente, «Dissertação sobre o Artificialismo» (OAM, II,155) e um opúsculo sobre uma «Dissertação a favor da Alemanha e do seu procedimento na Guerra Presente» (OAM, II,156-183); e, por fim, C) Orpheu (OAM, II, 184-185).Na secção dos textos suplementares, com quatro partes, incluem-se dezoito documentos divididos, respectivamente, por varia (OAM, III,01-07); «textos em que Pessoa hesita na atribuição (Mora ou Reis?Reis ou Mora?) (OAM, III,08-09); «textos de confronto e réplica a António Mora»(OAM, III,10-15); e «textos não assinados e sem título» (OAM, III,16-18).Tratando-se de uma edição de matriz genética, para além da lição crítica (resultante da decisão do editor quanto à identificação da última vontade do autor patente nos autógrafos), fornece-se ao leitor as lições recusadas, dubitadas, substituídas e acrescentadas pelo autor ao longo do processo genético de cada texto (em particular) e de cada ensaio (em geral). A metodologia de ordenação dos documentos, quer dentro de cada projecto, quer no cômputo geral da obra, partiu de uma análise aprofundada dos «cruzamentos» e combinatórias hipertextuais existentes entre os projectos atribuídos a António Mora. Dos vinte e oito projectos em que é referido, há a destacar um deles (OAM, I,65,pp.164-165) que apresenta a intenção geral de editar, em quatro números, uns «Cadernos de Reconstrução Pagã» (noutros projectos são designados como «Cadernos de Cultura Superior»), com o título geral ATHENA, tendo por Director António Mora, que teriam entre 64 e 128 páginas, com periodicidade irregular e com preço referenciado. Os documentos estão, assim,  arrumados de acordo com o entrecruzar combinatório dos projectos e tendo por base uma matriz genética.Num organigrama (OAM, pp. 46-49) estrutura-se a arquitectura/arquitextura das Obras de António Mora, cartografando toda a edição.

Em termos particulares, o «Regresso dos Deuses» assinado por Mora é um estudo crítico e uma introdução, simultaneamente, ao Movimento Pagão Português, à revista Atena e à obra de Alberto Caeiro, diferente da que será escrita por Ricardo Reis. Nele, Mora estuda «o paganismo, o cristianismo, as relações dos dois e a evolução do segundo», apontando «o sentido dessa evolução e o caminho que ante nós se abre» (OAM, II,1, p. 177). Para além de apresentar a «substancia do paganismo» (objectivismo integral) e a metafísica, a ética, a estética e a política do paganismo, assim como as «Provas da existencia dos deuses.Theoria dos deuses. O que são os deuses?» (OAM,II,64) (documento chave a vários títulos, inclusive para a compreensão da analogia com o próprio processo heteronímico e as suas várias explicações (cf. PP, pp. 169-192), inclui um parágrafo em que analisa «Alberto Caeiro, reconstructor do paganismo», em cuja obra «vemos a matéria primordial do paganismo, a matéria que, ao receber a forma, a recebe pagã» (OAM, II,50, p. 226). Ainda deste primeiro Caderno, fazem parte os «Prolegómenos a uma reformação do Paganismo» e «Os fundamentos do Paganismo», este último, a editar em Maio ou Outubro de 1918 (OAM, I,50,p.157). Se com o primeiro se pretende defender uma «teoria geral do Paganismo Novo» e o conceito de Realidade como «dimensão» e «grau» a partir da expressão de Caeiro «a Natureza é partes sem um todo»; com o segundo, Mora defende uma «contratese» a Kant (que Pessoa conhecia pela edição francesa de Barni, indicada num Diário de 1906 (20 e 27 de Abril), criticando a sua leitura moralizante da religião (a religião, por ser uma «ciência da utilidade» deve ser ultrapassada) e o erro «que consiste em atribuir à Consciência as qualidades da realidade» (OAM, II,117,p.296). Esta crítica é aprofundada na «Introdução ao estudo da Metafísica», pertencente ao «Segundo Caderno». No «Ensaio sobre a Disciplina» («Quarto Caderno») discute as noções de Arte-Perfeição e as de vida/morte por relação às de integração/desintegração. No único documento (inacabado) da «Dissertação sobre o artificialismo» (OAM, II,155) tenta definir o conceito de civilização. Por fim, na «Dissertação sobre a Alemanha», que aparece com múltiplas designações e que, nalguns pontos, se cruza com os «Prolegómenos», datável de 1914-1918, que foi escrito a partir da leitura de John C. Powys sobre «A Ameaça da Cultura Alemã» (OAM,II,156, p.345), livro existente na sua biblioteca, António Mora elogia o papel da cultura alemã, defendendo que a Alemanha «representa o culto da Verdade; as nações aliadas representam o culto da Mentira» (OAM, II,156, p. 345) e analisando o problema, quer da cultura quer da política alemãs, uma vez mais, por relação com a causa pagã.

Em geral, através da figura de António Mora, Fernando Pessoa desenvolve uma filosofia que tem por objectivo construir uma ética assente num suporte estético (com ressonâncias espinozistas por via da noção naturalista da religião), de certo modo alheia à tradição aristotélica, e, em maior grau, à tradição platónica, criando uma nova religião ligada à primitividade grega, partindo do diagnóstico da «doença do homem moderno» (decadência essa originada  pelo  cristismo, expressão que foi buscar a John Mackinnon Robertson, autor dos mais representados na sua biblioteca, com nada menos de 23 livros nas suas estantes, de entre os mais de cem  títulos que publicou, alguns deles, anotados a lápis nas margens, morto dois anos antes de Pessoa), contribuindo  para  a  repaganização  da  tradição  judaico-cristã, incluindo um elogio ao transcendentalismo hegeliano (sendo, igualmente, por esta via que Fernando Pessoa, de modo implícito, tece um elogio ao pensamento de Antero de Quental, sua referência fundamental, cf. PP, pp. 77-104). Esta repaganização tem por base três pressupostos essenciais:1) assumir «a pluralidade dos deuses  como essência da mitologia»; 2) a «adopção da criação como ideal humano»;  3) e encarar «a concepção do universo essencial como fenómeno essencialmente objectivo». O seu Dualismo Absoluto mais não é do que uma metafísica imanente à própria física, em que os deuses se assumem como figurações do primeiro grau de abstracção. A António Mora cabe fundar e iniciar a reconstrução do projecto pagão, quer traçando o diagnóstico da sua decadência quer erigindo a terapia conveniente (o filósofo como «médico da cultura» ─ Nietzsche). Daí a sua epifania se dar num sanatório: «Casa de Saude de Cascaes», à semelhança do que acontece com, por exemplo, a Montanha Mágica de Thomas Mann. Daí que as Obras de António Mora, de Fernando Pessoa se assemelhem a um «romance» (realista) que o não é, cuja génese se situa num conto, que também o não é: «Na Casa de Saude de Cascaes». Contudo, elas represenam, isso sim, a experiência (sistemática) duma Consciência em trânsito (heteronímico), encarada como viagem a caminho do Olympo da alma, como está escrito no final da nota introdutória dos Cadernos: «Nas vesperas, por assim dizer, do aparecimento dos numeros curaremos em que não falte aviso, para que não escape aos que, porventura, se disponham a acompanhar-nos, com agrado ou simples curiosidade, no nosso caminho para o Olympo» (OAM, II, 1, p. 172). Nesta viagem, o ensaio (romanceado) acaba por ser a substância do que relata, tal como no hiper-romance pessoano da heteronímia, em que cada figura heteronímica é o que diz que é, num constante jogo mimético e especular (cf. o nosso ensaio NE) entre, por exemplo, o sujeito-Mora-filósofo e o sujeito-Mora-real, ambos igualmente ilusórios, virtuais, pois toda a linguagem é uma «arte da dissimulação».

 

Teixeira, Luís Filipe B. (2004), «Narciso e o Espelho: Virtualidade e heteronímia ou as aventuras pessoanas de Alice» (NE) in Hermes ou a experiência da mediação (Comunicação, Cultura e Tecnologias), Lisboa, Pedra de Roseta, pp. 90-105; Teixeira, Luís Filipe B. (1996), Fernando Pessoa e o ideal neo-pagão (FPINP), Lisboa, Fund. Calouste Gulbenkian/Acarte; Teixeira, Luís Filipe B.(1997), Pensar Pessoa: A dimensão filosófica e hermética do pensamento de Fernando Pessoa (PP), Porto, Lello & Irmão; Teixeira, Luís Filipe (1992), O Nascimento do Homem em Pessoa: A Heteronímia como Jogo da Demiurgia Divina (NHP), Lisboa, Edições Cosmos; Urdanibia, Javier (1987), «Mora,  Baldaya  y  ciertos  textos  de  filosofía hermética, una vía de acesso al ‘Drama en Gente’», in Anthropos/Suplementos, Barcelona, Julho-Agosto, pp. 58-73

 

 

Luís Filipe B. Teixeira