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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Álvaro de Campos

Álvaro de Campos não é apenas um heterónimo de Pessoa, ao mesmo título que Alberto Caeiro e Ricardo Reis – os únicos que, com ele, receberam esse estatuto. Além de ter tido, como os outros, uma vida e um estilo próprios, e, por isso, uma inteira independência face ao seu criador, Campos saltava do palco da ficção em que fora engendrado para o rés do chão da realidade e intervinha no dia-a-dia do seu duplo. Ofélia, a namorada com quem Pessoa jogou ao amor, teve que aturar a intromissão, para ela importuna, desse “Engenheiro” que às vezes se lhe dirigia em viva presença (ela contou que, em certos dias, Pessoa declarava, no início do encontro, que quem tinha ido nesse dia ter com ela era o Álvaro de Campos…) Outras vezes aparecia-lhe por carta. Ofélia respondia, mas ia avisando Pessoa que, quando se casassem, o não queria na “nossa casinha”… Menos desenvoltura tiveram os discípulos da revista presença, João Gaspar Simões e José Régio, que ficaram não apenas atrapalhados mas também ofendidos (foi o primeiro que mo contou)  quando, de visita a Lisboa para conhecer o Mestre, este se lhes apresentou declarando preliminarmente que quem estava ali a recebê-los não era o Fernando Pessoa mas o Álvaro de Campos. É que o “Engenheiro”, na vida social, tinha um à-vontade que Pessoa estava longe de possuir, “incompetente para a vida” como declarou ser – pela sua boca e pela do seu “semi-heterónimo (semi-, apenas) Bernardo Soares. Também por essa razão é que quando se impunha ser social e politicamente activo, Pessoa envergava o nome e a irreverente verve do “engenheiro sensacionista” para se dirigir aos jornais – gesto que nenhum dos outros heterónimos teve, confinados que sempre ficaram ao seu lugar no palco da ficção em que foram engendrados. Também nenhum dos outros deu entrevistas, nem respondeu a inquéritos, como fez Campos, num dos casos para provocar a homofobia nacional exibindo a sua homosexualidade (no jornal A Informação, de 17-9-1926), e numa entrevista (nunca publicada, em que o entrevistador era pura e simplesmente Pessoa) para beliscar a velha sanha contra os judeus, anunciando gloriosamente o “futuro império de Israel”. No artigo panfletário “Ultimatum”, publicado, em 1917 no número único de Portugal Futurista, vocifera impropérios contra instituições e nomes internacionalmente reverenciados, inclusive contra a Igreja Católica e os seus dogmas – alvo preferencial das diatribes de Pessoa ao longo de toda a sua vida.E não esqueçamos que polemicou com Pessoa, escrevendo às revistas Contemporânea e Athena para criticar e se opor às posições aí por este defendidas em anteriores artigos.

Na apresentação que Pessoa faz de Campos a Adolfo Casais Monteiro, na célebre carta de 13.1.1935, pode perceber-se que Campos é o retrato melhorado, fisica e moralmente, do seu criador: mais novo dois anos (depois de certa idade faz sempre jeito…), dois centímetros mais alto (1,75 m., precisa Pessoa – o que lhe favorece a silhueta), e, como ele, “entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português”, “cabelos lisos, risco ao lado e com “tendência para se curvar”. Seguramente para honrar os seus antepassados judeus, de Tavira, Pessoa aí fez nascer Álvaro de Campos, a 15 de Outubro de 1990. A “casa antiga da quinta velha” é frequentemente evocada nos seus poemas, sempre com a pungente saudade do “Paraíso Perdido da (sua) infância burguesa”e do seu “horizonte de quintal e praia” e das “tias velhas” e do seu eterno chá, durante os longos serões em que se jogava a feijões nos “jogos de mesa”, com a presença também de uma avó que bordava a missangas. Poder-se-á dizer que era sobretudo na pessoa de Campos que Pessoa revivia frequentemente e com mais ênfase que pela própria voz, a sua infância “pavorosamente perdida”, no dizer de Campos.    

É órfão, mais ainda que Pessoa porque de pai e mãe. (Quererá isto dizer que, com o segundo casamento e as sucessivas maternidades de sua mãe, o menino Fernando dela também, em certa altura, se sentiu órfão?) Fala, num poema de uma ama: “Ó ama morta, que é do teu carinho grisalho?”Teve um tio da Beira, padre, que lhe ensinou latim – diz a Adolfo Casais Monteiro. Num poema afirma que foi “educado por um tio-avô, padre, que lhe instilou um certo amor às coisas clássicas” mas noutro poema esclarece que esse tio assim chamado em sinal de respeito, era, afinal, um primo. E também ficamos sabendo, através dos seus versos, que foi mandado estudar para a Escócia, “mania do tutor novo”(esclarece, no mesmo poema). Teve, portanto, vários  tutores.

Já através da célebre carta  a Casais Monteiro tínhamos sido informados que, depois de fazer o liceu em Lisboa, Álvaro tinha ido para a Escócia fazer engenharia, primeiro mecânica, depois naval (o que o predispunha melhor não a exercer uma profissão, a que nunca parece se ter verdadeiramente aplicado, mas a escrever não só a “Ode Marítima”, sua futura glória, mas também as outras mais pequenas odes da primeira fase, todas ou quase todas com cenário de barco e de mar).

Nas Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, precisa : “Deixei em quase três-quartos o meu curso escocês de engenharia naval; parti numa viagem ao Oriente; no regresso, desembarcando em Marselha, e sentindo um grande tédio de seguir, vim por terra até Lisboa.” (NRMC 37). Segundo um apontamento num bloco de notas que encontrei em casa da família, fiquei a saber que o nosso Engenheiro tinha trabalhado nas Obras Públicas de Bragança, donde foi expulso “por nada fazer”… – o que parece corroborar o verso de “Opiário”: “Não fazer nada é a minha perdição”… Podemos imaginar que Pessoa, que sempre ganhou o sustento com o suor do rosto, descansava dessas inglórias labutas na pessoa do seu Engenheiro…

No que respeita ao curso incompleto, também se parece com Pessoa, só que este desistiu do Curso Superior de Letras, que em 1905 veio cursar para Lisboa, logo após um primeiro ano mal sucedido.

Ficamos também sabendo através dos seus poemas que Campos “veio para Lisboa muito novo”, provavelmente frequentar o liceu, antes de partir para a Escócia. E aí o vemos regressado nos seus últimos tempos, como o atestam alguns dos seus derradeiros poemas, instalado na “Costa do Sol” (título de uma série de sonetos), entregue a imoderadas libações, acompanhado por uma senhora, aparentemente sua esposa, que se reclina  numa cadeira de praia (ACP 464-466). De facto, na carta a Casais Monteiro, de Janeiro de 1935, Pessoa esclarece que o Engenheiro se encontra, naquele momento, em Lisboa, em inactividade. E aí estaria quando, dez meses depois, Pessoa tomou o “comboio definitivo”.

Se quisermos compor esta ficção – que Pessoa encarou publicar com o título “Vida e Obras do Engenheiro”, registado num plano de futuras obras, temos que andar a catar informações, como tenho estado a fazer, em diversos textos. Continuemos a fazê-lo.

Para que melhor consigamos entrever a aparência do Engenheiro,  voltemos aos seus versos. Na “Saudação a Walt Whitman” apresenta-se-nos como um dandy : “Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado”, acrescentando, em “Passagem das Horas”, que leva três horas a vestir-se.  Escreve ainda, em “Saudação a Walt Whitman, que se considera “pretensioso e amoral”.

Em dois outros poemas, pelo menos, nos mostra que o envaidece ter um ar estrangeirado : “Vê-se, dizem, que tenho vivido no estrangeiro” , afirma em “Lá-bas, je ne sais où” e noutro poema em que assistimos aos preliminares da sedução de uma mundana da noite, num cabaret, até que soa “a hora sexual de nos irmos embora”: “Percebe-se”, dizes, “que o senhor viveu muito no estrangeiro.” / E eu que sinto vaidade em ouvi-lo!” (p.461).

Em “Opiário” informa-nos que toma ópio e morfina, que foi ao Oriente, à Índia e à China, o que Pessoa nunca fez e que, ao contrário de Pessoa, foi “mau estudante”. Afirma “fingi que estudei engenharia”, “vivi na Escócia. Visitei a Irlanda” e diz ainda que sabe inglês perfeitamente (como Pessoa), que é “doente e fraco” e que usa monóculo. “Eu sou monárquico mas não sou católico”, acrescenta – no que coincide com Pessoa, relativamente ao segundo ponto e também ao primeiro, embora só em parte: apesar de ter sido ferrenhamente republicano quando, em 1907, alinhou na greve académica do seu Curso Superior de Letras, de inspiração republicana, desencadeada sobretudo contra João Franco e de ter até criado uma “personalidade literária” , Joaquim Moura Costa, cuja verve junqueiriana fustigava “padres e reis”, Pessoa era por uma “república aristocrática”, que seria, afinal, uma conciliação entre o melhor da república com o melhor da monarquia. Não foi por acaso que chamou, num poema célebre, “Presidente-Rei” a Sidónio Pais.

Como Pessoa, Campos apresenta-se como um corpo-alma errante, até dentro de si próprio, sem poiso, sem lar. Pessoa ainda tem um regaço, Lisboa. Exclamará pela voz do seu semi-heterónimo Bernardo Soares : “Lisboa, meu lar!” Campos, no poema “Passo na noite da rua suburbana”, olhando as janelas iluminadas das “casas conjugais da normalidade da vida”, como um menino pobre espreita pelas grades do jardim de uma casa rica, dirá “a rua , meu lar” (p.392). No poema “Notas sobre Tavira” declarar-se-á  eterno“forasteiro, tourist, transeunte” , acrescentando : “Até em mim, meu Deus, até em mim.” Essa errância é sofrida no poema “Lisbon Revisited”, de 1926, quando se afirma “transeunte inútil de ti e de mim”. Noutros  poemas se diz um “passageiro parado” e declara “vou andando parado”. Pessoa, num verso seu, dirá: “É só através de nós que caminhamos”.

A sua “sensibilidade da exclusão” manifesta-se no poema em que a refere (“Passo na noite da rua suburbana”), e em muitos outros, nomeadamente em “Tabacaria”: “Mas sou e serei sempre o da mansarda, ainda que não more nela.” Campos purga Pessoa do seu desgosto de ser feio, confessado a Ofélia e em vários poemas : “Escuso de me achar feio, porque os feios também são amados / E às vezes por mulheres!” ( p.410). A sua confessada loucura também o faz sentir-se à parte, diferente: até os operários o olham com estranheza : “o soslaio do operário estúpido para o engenheiro doido”, refere, num poema (p.357). Noutro afirma: “Estou doido a frio / Estou lúcido e louco” (p.493) e noutro ainda : “…narro-me prolixamente, sem sentido, como se um parvo estivesse com febre” (p.315).

A linguagem de Campos é, propositadamente, descoordenada, aos borbotões, sem continuidade lógica, por vezes, para mimar o falar desse “parvo” - esse “diálogo contínuo, um falar alto incompreensível, alta noite na torre” que assume ter em “Passagem das Horas”; onde também fala de si como um “degenerado superior” (expressão colhida num dos numerosos livros de psiquiatria que costumava consultar, provavelmente em Lombroso, nomeado por Max Nordau, cujo livro La Dégénérescence, que Pessoa leu em francês, esteve à sua cabeceira).

Não podemos esquecer que um dos medos que perseguiu Pessoa toda a sua vida foi o da loucura, chegou mesmo a autodiagnosticar-se (através da leitura de um dos tais livros de psiquiatria) um acesso ligeiro de “loucura psicasténica” e a encarar internar-se para se tratar. Dir-se-ia que Campos funcionou como seu abcesso de fixação e que, quando exclamou, como quem põe o dedo na ferida : “Cá está ela! Tenho a loucura exactamente na cabeça!”, (p.355) estava a localizar o seu mal para dele se livrar. Campos encarnou, da mesma forma,  outras doenças de Pessoa : a abulia e a insónia . Em “Carry Nation”, Campos autoflagela-se assim: “Eu, que nunca fiz nada no mundo,/ Eu, que nunca soube querer nem saber,/ Eu que fui sempre a ausência da minha vontade”(p.399). Quanto à insónia, é a situação-chave dos poemas do Campos adulto, incapaz de conciliar o sono e o sossego, do corpo e da alma. Álvaro de Campos era, além disso, “supersticioso como uma camponesa madrinha”, como confessa em “Passagem das Horas”, tal como o próprio Pessoa – Ofélia refere essa sua fraqueza no depoimento introdutório à primeira edição das cartas de amor que Fernando lhe dirigira.

Campos teve, pois, esse papel : o de catarticamente viver os seus males e deles, assim, o libertar. Purgou-o do seu medo da loucura, da homossexualidade (assumindo-se como tal), da morte ( instalando-se na gare, à espera do “comboio definitivo” e indo ao seu encontro em poemas como “Partida” e “Ode Mortal”), e “cozeu” as suas bebedeiras, impedindo-o de se mostrar bêbedo em público. Foi um fumador compulsivo – embora não tivesse fumado em vez de Pessoa, infelizmente, os oitenta cigarros que, segundo o primo Eduardo Freitas da Costa, ele queimava por dia… No “Poema em Linha Recta”, Campos faz a autocrítica de alguns pecados de Pessoa, nomeadamente ter feito “vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar” (p.262). 

Campos é, de facto, Pessoa em mais intenso, mais interessante, com maior relevo, com mais picante. Como diz nas Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro: “Eu sou exasperadamente sensível e exasperadamente inteligente. Nisto pareço-me (salvo um bocado mais de sensibilidade e um bocado menos de inteligência ) com o Fernando Pessoa” (obra citada, pp. 52-53) .

Outra importante afinidade de Campos com Pessoa tem que ver com esse coração omnipresente na poesia do “engenheiro doido” (que, significativamente, nem Caeiro nem Reis citam; aliás Caeiro pretende mesmo que “todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros”). Campos confessa, num poema, a sua “vasta fraternidade com a humanidade verdadeira” ( p.497), afirmando : “E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro” ( p.498). Em “Tabacaria”, exclama: “Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo” e, noutro poema, ainda dos primeiros tempos, fala da sua “doença humanitária” : “Ó doença humanitária dos meus nervos vibrando cheios de outras pessoas” (p.241).

Na pessoa de Álvaro, Fernando cometeu todas as irreverências pessoais e políticas de que, na sua própria pessoa, se abstinha, foi anarquista (ele que dizia que o papel de um intelectual era ser “um criador de anarquias”), disse todos os palavrões e indecências que os amigos, no Café, tinham o cuidado de não pronunciar diante dele para não o chocar (queixa-se disso numa nota de diário), conheceu intimamente mulheres e homens(um tal Freddy, uma tal Daisy, e até relembra uma Mary como o único amor da sua vida). Aliás, os seus últimos poemas surpreendemo-lo num interior doméstico com uma mulher que toca piano, que faz croché, a quem diz tu. O “português à inglesa” que Pessoa diz ser, num poema seu, foi inteiramente assumido por Álvaro de Campos.

O empreendedor que Pessoa foi, fundando várias empresas ( todas, infelizmente, sem êxito e de curta duração) aconselhava-se, provavelmente, com o Engenheiro …- que, infelizmente, da prática tinha sobretudo a teoria…Deveria ser Campos o principal seduzido pelas teorias dos americanos, em matéria de comércio e contabilidade – e, quem sabe, foi ele que escreveu o conhecido slogan publicitário para o lançamento da coca-cola (afinal proibido) : “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”…

E não esqueçamos a principal ousadia de Campos a do verso livre, o que ele chamou  “ritmo paragráfico”, livre das peias da métrica e da rima. “Como se pode sentir nessas gaiolas?” - exclama ( Álvaro de Campos, Vida e Obras do Engenheiro, edição de Teresa Rita Lopes, Lisboa. ed.Estampa,1992 - 2ª ed., pp.119-124) .

 

FASES

Tudo começou com os desafios da Modernidade, veiculados de Paris por Mário de Sá-Carneiro que para lá foi em 1912 e aí viveu longamente entre essa data e 26 de Abril de 1916, dia do seu suicídio nessa sua cidade bem amada.     

Campos afinal não se revelou no tal “dia triunfal”, 8 de Março de 1914, como Pessoa conta na carta referida a Casais Monteiro, depois de Caeiro (de que aliás só há dois poemas datados desse dia). A “Ode Triunfal” através da qual Campos fez a sua espaventosa irrupção no “drama em gente” foi apenas escrita em Junho, como se pode ver pela indicação final que Pessoa lhe apôs :”Londres, Junho de 1914” e através da cartas de Sá-Carneiro. “Londres”é encenação também, claro. Curiosamente, o primeiro poeta concebido como “moderno” foi Alberto Caeiro : por isso o seu verso livre e alguns poemas de exaltação da nova era das máquinas que, depois da afirmação do “Engenheiro sensacionista”, em Junho, foram transferidos para o seu activo ( como indico na edição referida da Poesia de Campos).

Antes do “nascimento” do “engenheiro”, Pessoa planeou fazer um lançamento bombástico de Alberto Caeiro como sendo o maior poeta moderno, rascunhando mesmo uma entrevista por ele dada em Vigo, onde mete a ridículo Teixeira de Pascoais e os seus seguidores. (Teresa Rita Lopes, Pessoa por Conhecer, volume II, Lisboa, Editorial Estampa, 1990, pp.399-402).  Quando Pessoa concebe Campos como uma abertura à Europa e um desafio não só ao escandaloso Futurismo então em voga mas também a Walt Whitmam  (Pessoa sempre gostou de se medir com os seus modelos), enviou Caeiro para o Ribatejo apascentar as suas ovelhas-pensamentos e encarregou o Engenheiro de assumir todas as provocações da Modernidade, “ardendo com ter toda a Europa no cérebro”, como proclama na “Saudação a Walt Whitman”.

O “Engenheiro Sensacionista”, como a si próprio se intitulava, devia, pois – seguindo o exemplo de Caeiro, que proclamava seu mestre - transformar todos os seus pensamentos em sensações, reagindo aos intensos e numerosos estímulos da nova era das máquinas. Assim fez na “Ode Triunfal” que Sá-Carneiro considerou a obra-prima do Futurismo, aclamando “os maquinismos em fúria”. Curiosamente, as outras Odes desta primeira fase já fogem a esse cenário. Assim, a “Ode Marítima” invoca (mais do evoca) os rudes marinheiros da era das Descobertas,“a antiga vida dos mares”, para que essa energia o acorde da sua “vida sentada”, o liberte do seu “traje de civilizado” e transforme o “poeta decadente” que diz ser num homem novo. A “Ode Marcial” apresenta a originalidade de não ser uma exaltação da guerra, à maneira dos Futuristas, mas a sua condenação. “Passagem das Horas” foi concebida para ter um ritmo solar,  como a Ode  Marítima, que nos fazer assistir ao crescendo das emoções desde o seu despontar até ao seu clímax e, depois, ao seu crepuscular decrescer. Mas dela – como aliás de todas as outras odes, com excepção da Triunfal e da Marítima, que cuidou para publicar no Orpheu – Pessoa só deixou fragmentos que têm, contudo, uma certa unidade, porque correspondem a momentos de escrita. (Como tal os publiquei, recusando montagens abusivas, na obra citada.) Mas também esta admirável “Passagem das Horas”não faz a futurista exaltação da era das máquinas, traduz antes o anseio, a “raiva panteísta” de fazer corpo com todos e tudo, de “sentir tudo de todas as maneiras”. A invocação da noite, o momento final da ode, tem a mesma lancinante beleza crepuscular dos “dois excertos de odes” escritos no mesmo mês de Junho da apoteótica “Ode Triunfal”. 

Segundo a “evolução” (termo por Pessoa usado) da ficção “vida e obras do Engenheiro” por ele prevista, Campos teria passado do “poeta decadente, estupidamente pretensioso” que tinha sido antes de conhecer Caeiro, e de que Pessoa tentou dar a imagem ao escrever “Opiário”, já depois da “Ode Triunfal, ao “engenheiro sensacionista”, autor das vibrantes odes que o deram a conhecer. Mas, como o próprio Pessoa fez notar, o poeta sensacionista não deixa de ser decadente porque esse excessivo entusiasmo pela saúde já é doença. Em “Opiário”, onde se confessa “doente e fraco”, diz que “gostava de ser as coisas fortes”. E confessa a Walt Whitman, na sua “Saudação”: “Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos…”

Este Campos de amplo fôlego vai contudo calar-se pouco depois do desaparecimento de Sá-Carneiro, em 1916. O Sensacionismo tinha nascido da amizade dos dois, como Pessoa precisou, e morreu com o seu grande instigador. Mas Álvaro de Campos não desaparece: manifestar-se-á frequentemente  nas cartas de Pessoa a Ofélia, em 1920,  com “saídas” paradoxais, bem ao seu jeito, que  Pessoa lhe atribui, acrescentando, entre parêntesis : “A. de Campos”. Na penúltima carta, de 15 / 1920, já de adeus, depois de comunicar a Ofélia que pensa internar-se numa casa de saúde  para se submeter a um tratamento psiquiátrico que lhe permita “resistir à onda negra que (lhe) está caindo sobre o espírito”, Pessoa exclama: “Afinal o que foi? Trocaram-me pelo Álvaro de Campos!”

Em verso, só temos poemas datados e por ele assinados a partir de 1923, com “Lisbon Revisited” e uma nova passagem da “Passagem das Horas”. Com estes poemas se inicia uma nova fase, de Campos adulto, chamei-lhe (na obra citada) “Metafísico”. Acabaram-se as gesticulações histéricas, os espalhafatos verbais desse ser de palco que foi o “Engenheiro Sensacionista”, com modelos estrangeiros no horizonte que ele tentava superar. Temos agora o grande Campos da grande “Tabacaria” – a que um francês, Remy Hourcade, chamou “o mais belo poema do mundo”.

A partir do segundo poema intitulado “Lisbon Revisited”, de 1926 (escrito no mesmo dia, 26 de Abril, do magnífico poema “Se te queres matar” – curiosamente décimo aniversário do suicídio da Sá-Carneiro),  Pessoa desembarca de todas as aventuras marítimas (muitos dos anteriores poemas situam-se num barco ou num cais) e anda a pé pela cidade, de eléctrico, vai a Tavira, de comboio, a Sintra, num chevrolet emprestado. Já não temos o Campos voltado para o exterior, na sua fúria de encontrar “um caminho para a vida” mas uma personagem a sós consigo, encerrada nas quatro paredes de si própria, muitas vezes à janela, como em “Tabacaria” e em muitos outros poemas (pp.397, 450, 483, 496, 535).

Nesta fase “metafísica”, Campos despreocupa-se inteiramente de ser moderno. Desembarca de todas as viagens e fixa-se em Lisboa, afinal seu “lar” – como para Pessoa e Bernardo Soares. A sua linguagem perde o amplo fôlego marítimo das grandes odes mas torna-se mais íntima, mais intensa e adquire toda a dramaticidade que faz dele o protagonista do “drama em gente”. Caeiro e Reis já estão cumpridos, por assim dizer – e revelados pela revista Athena, em 1924 e 1925 - que ,dele, só publicou prosa: “O que é a metafísica?”  a discordar de Pessoa, no seu artigo de apresentação da revista e “Apontamentos para uma Estética Não-Aristotélica”. Dir-se-ia que Campos levou tempo a livrar-se das suas vestimentas sensacionistas e a tornar-se ele próprio. Só à revista presença, a partir de1927, Pessoa confia os poemas e as prosas do seu Engenheiro, na sua nova fase.

1928 foi um grande ano em temos de produtividade poética: Campos deixou 15 poemas datados , Bernardo Soares desperta na sua plena forma e surge o Barão de Teive. São desse ano alguns dos maiores poemas de Campos: além da “Tabacaria”, “Demogorgon”, “Apostilla”, “Adiamento”, “Mestre, meu Mestre”, “Na noite terrível”, “Ao volante do Chevrolet”, “Nuvens”.

1929 tem 17 poemas datados, de entre os quais, “Insónia”, “Quasi”, “Acaso”, “Ah, a frescura na face”, “Talvez não sejas mais do que o meu sonho”, “Poema de Canção sobre a Esperança” (os dois últimos inéditos até há pouco).

1930 é um grande ano também, com 21 poemas datados (apesar da dispersão que poderia ter sido a visita de Crowley e a recaída no namoro com Ofélia…)

Considerei o final deste ano como o fecho desta fase, a que se seguirá o que me ocorre chamar a do “Engenheiro aposentado” – porque nesta fase o vemos instalado na “Costa do Sol” (título de um tríptico de sonetos), reclamando vinho, fumando, tratando por tu uma senhora que, no Estoril, se estende numa cadeira ao seu lado, dormindo com a serena indiferença duma velha esposa. Com voz entaramelada, devido provavelmente a imoderadas libações, o Engenheiro exclama: “Ó grande mar atlântico, desculpa!/ Cuspi à tua beira três sonetos./Sim, mas cuspi-os sobre a minha culpa.” (p.466)

A linguagem acompanha o desencanto da personagem, segue o ritmo da sua desistência de tudo, da sua apetência de nada. O monólogo segue a marcha lenta, insegura, do pensamento, das emoções, cada vez mais lassas, sem os jovens ímpetos da fase “sensacionista” nem os voos metafísicos da fase da “Tabacaria”. São poemas de interior, às vezes à janela, olhando a rua como um prisioneiro, outras vezes deitado na cama., às voltas com a insónia. Fala da vida como “isso que está aí fora e é a vida” (p.509). Quer, à maneira budista, “Não ter emoções, não ter desejos, não ter vontades”  (p. 487) - ou, melhor, “vivê-los em outrem”- , “Colher coisa nenhuma nas roseiras sonhadas, / E jazer quieto” (p.488). O passo torna-se-lhe cada vez mais curto, e assistimos a esse “cair das mãos ao pôr do sol do esforço” em que se sente e se vê – a divisão dos versos mostra-o - o ritmo do poema decrescer, como uma asa que se fecha sobre si própria, a desistir do voo.  Mas o seu nomeado coração sofre com a “vasta fraternidade com a humanidade verdadeira” (p.497) que sente cada vez com mais intensidade. Mas, curiosamente, alguns destes anos são bastante produtivos, sobretudo o de 1934, com 22 poemas datados.

Assim como foi preparada a “evolução” do livro de Caeiro (a história da sua vida e obra foi prevista de maneira a que pudéssemos acompanhar o avanço da sua doença e o seu caminhar, com toda a serenidade, para a morte), assim também a de Campos, se ordenarmos os poemas segundo as suas datas, nos permite assistir à sua natural decrepitude, como um sol declina para o seu ocaso.

 

CAMPOS INCONFUNDIVEL

 

Convém lembrar que muitos dos poemas de Campos não trazem atribuição. Precisamos de ter bem presentes as impressões digitais do Engenheiro para os conseguirmos identificar. Além das já indicadas, analisemos algumas outras.

 

Desdobramento

Campos dramatiza a permanente angústia de Pessoa de ser simultaneamente dois : o que sente e o que pensa  - que o  célebre verso do poema “Ceifeira” traduz: “O que em mim sente está pensando”. Outro poema do ortónimo exprime o mesmo desconforto do sujeito se desdobrar sempre no que sente e no que se assiste sentindo: “Brincava a criança / com um carro de bois/ Mas viu-se brincando/ E disse:”Eu sou dois”. Mas enquanto Pessoa se limita a falar disso, Campos confere intensidade dramática a essa relação do eu sujeito , o que se vê ser, com o eu objecto, o que é visto a existir porque os põe a ambos a contracenar: o que tem a consciência de estar existindo, o que assiste a si próprio, comenta os gestos do que existe, o que movimenta um corpo no espaço e no tempo . E traduz o desconforto dessa dualidade dizendo que tem “a consciência de estar existindo / como um tapete em que um bêbedo tropeça”.Mas essa dualidade é o motor dramático desses monólogos consigo próprio a que Mallarmé, que Pessoa lia, admirava e citava, chamou “monologue avec Soi”, tendo como exemplo o monólogo do Hamlet, desse Shakespeare que Pessoa também considerava seu modelo.

O poema “Tabacaria” fornece variados exemplos deste “desdobramento”: temos a personagem  em situação, num aqui e num agora, num quarto com uma janela a que, às vezes, se assoma – e é de lá que vê a tabacaria, e o dono dela e “o Esteves sem metafísica” e tudo o que existe na rua. O eu que pensa – o que se vê viver  - dá notícia da movimentação dentro de casa  do eu que vive : “Semiergo-me enérgico, convencido, humano, / E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.” Curiosamente  há um desfasamento de tempo entre o que se assiste e o que “vai tencionar escrever estes versos” . A escrita do poema é portanto posterior: noutro verso diz “Sim. todos os poemas são sempre escritos no dia seguinte” (p.363).

A militância de Pessoa contra o naturalismo do sentir está presente neste versos: o Poeta não se dá em espectáculo , directamente, exprimindo a sua dor ou alegria no momento em que acontece, “finge-as” , utilizando sempre a mediação do que tem “a consciência de estar existindo”. Além da mediação do “pensar”, há a da memória (porque “todos os poemas são sempre escritos no dia seguinte”).  

Tomemos outro exemplo: “Tenho que arrumar a mala de ser. / (…) / A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte. / Olho para o lado, verifico que estou a dormir. (…)Arre, hei-de arrumá-la e fechá-la” (pp. 428-429) É visível a diferença entre a linguagem performativa do que vive a acção diante de nós (“Arre”…etc) e do que se vê existir e comenta, como se outro fosse: “Olho para o lado, verifico que estou a dormir.”

     

Monodiálogos

 

Uma originalidade do Campos dos últimos tempos é o que poderemos chamar os seus “monodiálogos” :

Apesar de haver duas personagens em cena, aquilo a que assistimos é a uma montagem de vozes, como no poema “São poucos os momentos de prazer na vida” em que a presença da tal mundana da noite que Campos quer “engatar” no cabaret, é apenas insinuada em metafóricos relances e ecos de palavras : “Tu, com teus gestos de distinção cinematográfica (…) Cumprindo a tua função de animal emaranhado (…) “Percebe-se”, dizes, “que o senhor viveu muito no estrangeiro.” (p.461)  Noutros poemas ouvimos apenas  uma voz , respondendo ou interpelando, reagindo à presença de outra personagem para nós invisível. É um processo, como o anterior, pleno de dramaticidade. Alguns exemplos : “ Um momento…Dá-me de ali um cigarro,/Do maço em cima da mesa-de-cabeceira./ Continua…Dizias(…)” (p. 418) ;  “Meu pobre amigo, não tenho compaixão que te dar.(…)Com que então problema sexual? / Mas isso depois dos quinze anos é uma indecência./ (…) O sexo oposto existe para ser procurado e não para ser compreendido.” (p.419) ;  “Sim, não tenho razão…/ Deixa-me distrair-me do argumento mental, / Não tenho razão, está bem, é uma razão como outra qualquer…” (p.448); “É inútil prolongar a conversa de todo este silêncio./Jazes sentado, fumando, no canto do sofá grande - / Jazo sentado, fumando, no sofá de cadeira funda, / Entre nós não houve, vai para uma hora, / Senão os olhares de uma só vontade de dizer.” (p.448);

 

Linguagem modelada pelo gesto

Campos sensacionista exclamou : “Sou um surdo-mudo berrando em voz alta os seus gestos”( p.187) , mas essa linguagem moldada pelo gesto será uma característica de todas as fases. Noutro poema, pergunta-se: “Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?” (p.366) Na fase sensacionista a gesticulação é mais intensa, histérica, por vezes, mas o gesto não deixa de estar presente nas duas últimas fases, só que é um gesto não convexo mas côncavo, por assim dizer, pois não é inexistente – “Qualquer coisa como um grito por dar”( p. 455) que contudo se insinua para dentro do peito e aí abre uma concavidade. Em todas as fases o Engenheiro nos pega pelos ombros e nos abana com suas interjeições (“Arre!” é a mais constante) e impropérios. Por vezes a linguagem cola-se ao ritmo do caminhar, mas não só do caminhar em frente, também do “andar parado”do transeunte de si próprio que afirma ser (pp.412-413), ou acompanha a marcha da escrita.

 

A visceralização do pensamento

 

O Interseccionismo tão procurado por Pessoa, Sá-Carneiro e seus colegas do Orpheu teve, com Campos, o seu mais original cultor. A sobreposição do concreto e do abstracto procurada aplicadamente por Pessoa, em “Chuva Oblíqua”, levou-a Campos às suas últimas consequências – não só à concretização do abstracto mas até à sua visceralização : “Graças a Deus (…) / Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta / E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada! / Graças a Deus, porque, como na bebedeira, / Isto é uma solução. / Arre, encontrei uma solução e foi preciso o estômago! / Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!”  (p.355)

Para que o pensar não se cruzasse com o sentir, Campos suplica: “Pára, meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça!” (p. 404) Mas o coração, ou a cabeça, não lhe obedecem. E exclama: “Que náusea no estômago real que é a alma consciente!”(p. 402)

Em “Saudação a Walt Whitman”, para escandalizar os seus contemporâneos afirma que quando lhe beija o retrato sente “uma erecção abstracta e indirecta no fundo da alma”.

Na última fase, apetece “a vida vegetativa do pensamento” e tenta embalar a incómoda alma, para que o deixe em paz: “ Dormita, alma, dormita!” (p.522)

 

Esta história da “Vida e obras do Engenheiro” que tentei contar sumariamente não poderia ser reconstituída com os poemas de Campos que até 1990 conhecíamos, editados pela Ática, que são apenas um terço dos que constam na obra aqui citada .

E se não pudéssemos reproduzir essa “evolução”, a história ficaria por contar – a do fiel “fingidor” de Pessoa, o único heterónimo em nome do qual se exprimiu até morrer. De facto, Caeiro pouco escreveu depois de 1919, Reis, esse, foi-se exprimindo pelos anos trinta fora, mas dos dois últimos anos só há um poema datado. Álvaro de Campos, apesar de Pessoa ter escrito um último poema para fechar o “livro”, em 3 / 2 / 1935, significativamente intitulado “Regresso ao Lar” (p.540), continuou a escrever até à partida no “comboio definitivo”, a 30 / 11 / 1935, pelo menos mais seis poemas datados. O último foi ditado pelo seu omnipresente coração, o que diz, não como as pessoas citam, que “Todas as cartas de amor são / ridículas”, mas que “Só as criaturas que nunca escreveram / Cartas de amor / É que são / Ridículas” (p.550).

 

BIBLIOGRAFIA :  Álvaro de Campos, Poesia , edição de Teresa Rita Lopes, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006 (3ª edição) ; Álvaro da Campos, Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, Lisboa, Editorial Estampa, 1997; Teresa Rita Lopes, Pessoa por Conhecer, 2 volumes, Lisboa, Editorial Estampa, 1990.

 

Teresa Rita Lopes