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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Alma

Para as discussões sobre a alma deveríamos, no caso da cultura ocidental, remontar ao Antigo Testamento e à doutrina das Ideias no pensamento de Platão. A existência da alma é atestada em quase todos os mitos de criação da chamada “bacia mediterrânica”.

Fernando Pessoa desde cedo se debruça também sobre esta questão, e reflecte sobre a “dicotomia anímica” que é a sua, dividida entre sentimentos amorosos e fraternos e sentimentos de intensa e dolorosa solidão (Obras em Prosa, doc. 1908, p. 34-35); reconhece, nesta auto-análise, a contradição que é a sua, desejando exprimir-se totalmente e receando fazê-lo, por “temor à loucura”, outro tópico que ao longo da vida o acompanhará.

Em 1917 vê-lo-emos afirmar que o seu espírito vive “constantemente no estudo e no cuidado da Verdade” no escrúpulo de deixar à humanidade uma obra que a sirva para seu bem e progresso. Aqui fala do momento em que “despirá a veste que o liga a este mundo”, assumindo assim a dupla condição, física e espiritual que acredita ser a sua. Para Pessoa a Alma existe: é uma dimensão do ser humano, distinta das outras que são o corpo e o espírito (Obras em Prosa, p. 36).

Vai mais longe, ao definir-se, em documentos ainda anteriores (± 1910) como “poeta estimulado pela filosofia”, gostando de admirar “a beleza das coisas, descobrir no imperceptível, através do diminuto, a alma poética do Universo. Em cada detalhe ínfimo reconhece “a alma das coisas”, e ao modo da explicação platónica afirma que se sente como “alguém que lutasse para recordar esse conhecimento…” (p. 36-37).

Em texto escrito em 1916 para a revista Orpheu, cuja orientação simbólica todos os colaboradores partilhavam, podemos ler:

“Sentir é criar… O sentimento abre as portas da prisão com que o pensamento fecha a alma. A lucidez só deve chegar ao limiar da alma”. E adiante: “Faze da tua alma uma metafísica, uma ética e uma estética”. Assim afirma a sua convicção religiosa (que é filosófica e mística) e o seu entendimento do acto de criar (p. 38).

Muito da sensação misteriosa de que o Oculto comanda a mão (e a vida) do poeta transparece na sua obra, ortónima e heterónima. “Alma” é um dos conceitos dessa dimensão oculta, que fascina e aterroriza, pela consciência que se tem da sua importância, da sua presença, da sua fragilidade.

A dimensão simbólica da alma reside ainda num outro entendimento da sua realidade: é Anima, é a zona escura das sensibilidades e afectos que a figuração do feminino representa. Algo que a consciência superior tem de integrar para uma completude desejável. Tal completude não existe em Pessoa, que vive em dispersão fragmentada, cria em pulverização de sentimentos e emoções contraditórios e que ele mesmo apresenta como tal. É lícita, no caso de Pessoa, leitor de Freud, uma interpretação psicanalítica. O Sopro, que é a alma, é também em Pitágoras a pulsão vital: e é da falha nessa pulsão que o poeta se queixa, nas prosas como em muita da sua poesia. A alma, como dimensão da psique, estabelece uma relação que pode ser positiva ou negativa com o Inconsciente, e daí a sensação de mistério e de sobrenatural que a ele se liga, pois o inconsciente é o Desconhecido no homem, o Outro do Em-si. A alma é a mediadora do eu (do Si mesmo) e do Em-si, o Eu superior, o Absoluto de que o poeta fala. Das figurações míticas da Alma podemos distinguir a Eva (a mulher primordial), a Virgem (o Feminino espiritualizado), a Sabedoria (Deus no seu Todo, o Criador com a sua Criação).

Resumindo, diremos que a Alma como arquétipo do Feminino é diminuída, ou abolida, na obra de Pessoa. Sem falar da impossível relação com Ophélia, que Pessoa justifica por obediência a um “chamamento” iniciático superior, vemos em muitos poemas a intensidade dolorosa com que proclama a fractura que vive: a busca e consciência superior do que nele é o Espírito anula o que devia ser a maturação da Alma, na sua entrega simples.

Uma leitura cuidadosa do Cancioneiro permite ver até que ponto Pessoa vive esse drama sem solução de uma Alma desgarrada da consciência.

     “Sonho. Não sei quem sou neste momento.

     Durmo sentindo-me. Na hora calma

     Meu pensamento esquece o pensamento,

     Minha alma não tem alma.” (1933)

 

Já no poema da Ceifeira, de 1914, essa fractura do pensamento e do sentimento, da  consciência e do ser, se tornara manifesta: “Ela canta, pobre ceifeira, / Julgando-se feliz talvez / …. Ah, poder ser tu, sendo eu! / Ter a tua alegre inconsciência. / E a consciência disso! Ó céu! / Ó campo! Ó canção! A ciência / Pesa tanto e a vida é tão breve! / Entrai por mim dentro! Tornai / Minha alma a vossa sombra leve! / Depois, levando-me, passai!” (1914).

     Ecoa nestes versos o desespero do Fausto de Goethe quando exclama que nele vivem duas almas contraditórias e irreconciliáveis, duas pulsões que se anulam: a do Conhecimento e a da Vida. Mefisto virá oferecer-lhe a Vida. Mas a Pessoa faltou o seu Mefisto. O Mago Crowley pareceu seduzi-lo, a dada altura. Mas o poeta não se deixou enredar, para além de um certo limite.

Reflectindo sobre o sistema cristão e sua diferença em relação a outros, como o hindu, por exemplo, escreve Pessoa que no primeiro se acentua “a expressão dos sentimentos íntimos”, a “confissão da alma” (Obras em Prosa, ms. 1917, p. 189). O artista cristão busca exprimir o que sente, e a área dos sentimentos é a própria da alma. Contudo é a discussão em torno do pensar que persegue o poeta ao longo da vida: “…. Pensar em nada / É ter a alma própria e inteira. / Pensar em nada / E viver intimamente / O fluxo e refluxo da vida…” (Álvaro de Campos, 6-7-1935)

Esta contradição entre Pensar e Sentir, entre o Espírito e a Alma, será irremediável. Sendo a Alma figurada por símbolos femininos, maternais, podemos ainda verificar que não existem, salvo uma ou outra alusão (à Ama, por exemplo) na poesia de Fernando Pessoa. A mãe ausente, a amada em quem não se deseja tocar (Ricardo Reis) confirmam a incompleta relação com a Alma / Anima.

Alberto Caeiro responde às inquietações metafísicas de Pessoa (mas não as apagará…): “Há metafísica bastante em não pensar em nada. / O que penso eu do mundo? / Sei lá o que penso do mundo! / … Que tenho eu pensado sobre Deus e a alma / E sobre a criação do Mundo? / Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos.” (poema V, O Guardador de Rebanhos, 1911-1912).

Pensar é doença, viver seria a cura. Mas Fernando Pessoa é um incurável pensador. O seu vitalismo é ficção (do Interlúdio); o seu panteísmo máscara de lisboeta viciado nos cafés, nas tertúlias, nas tasquinhas. O rebanho que Caeiro guarda é o dos pensamentos. No poema XXX conclui:

“Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o. / Sou místico, mas só com o corpo. / A minha alma é simples e não pensa”.

 

Assemelha-se aqui à Ceifeira que canta e é feliz sem saber que o é. Caeiro afirma viver sem saber ou querer saber que vive: esta seria a forma ideal de ser, mas não passa disso, de uma forma ideal que a realidade nega. Pessoa, cartesiano, pensa para existir. Caeiro manifesta-se, em oposição, mas a sua voz esgota-se em si mesma, e não ajuda a curar as fracturas de alma de um poeta-pensador impenitente. Eis o que escreve pela mão de Ricardo Reis no ano da sua morte:

“Vivem em nós inúmeros;

Se penso ou sinto, ignoro

Quem é que pensa ou sente.

Sou somente o lugar

Onde se sente ou pensa.

 

Tenho mais almas que uma.

Há mais eus do que eu mesmo.

Existo todavia

Indiferente a todos.

Faço-os calar: eu falo.

 

Os impulsos cruzados

Do que sinto ou não sinto

Disputam em quem sou.

Ignoro-os. Nada ditam

A quem me sei: eu ‘screvo”

(Ricardo Reis, Odes, 13-11-1935)

 

Pessoa, abolidos pensamento e sentimento, razão e emoção, espírito e alma, constitui-se como espaço mítico absoluto, o Nada em que o Todo da obra se origina: escreve. E inscreve-se desse modo no que é seu, da Criação.

 

 

Bibliografia:

-          Dictionnaire des Symboles, ed. Robert Laffont, Paris 1969.

-          Jean Servier, Dictionnaire Critique de l’Ésoterisme, ed. PUF, Paris 1998.

-          Fernando Pessoa, Obra Poética, ed. Aguilar, 1972.

-          Fernando Pessoa, Obras em Prosa, ed. Nova Aguilar, 1982.