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  Arquivo Virtual da Geração de Orpheu

 

 

Aliester Crowley (1877-1947)

Nasceu em Leamington, no Reino Unido, de uma abastada e conservadora família da classe média, com o nome de Edward Alexander Crowley, que mudou para Aleister por considerar a conjugação de sons – um dáctilo seguido de um espondeu – mais favorável. Os pais eram seguidores dos Plymouth Brethen, uma seita dissidente da Igreja de Inglaterra, e o ambiente familiar repressivo em breve criou a revolta do jovem Crowley. Em Cambridge interessou-se pelo oculto, através da leitura de The Book of Black Magic and Pacts, de A.E. Waite. Tornou-se membro da Ordem Hermética da Golden Dawn, uma facção da Great White Brotherhood. Mais tarde fundou a sua própria ordem, a Silver Star ou Argentium Astrum, ou A.A. Casou-se com Rose Kelly em 1903, a primeira de uma série de mulheres que o acompanharam. Numa visita ao Museu do Cairo, Rose, em transe, conduziu Crowley até uma estela com a imagem de Horus e catalogada com o número 666. Este episódio convenceu Crowley do seu destino. Rose, guiada pela voz de Aiwass, uma espécie de espírito protector, ditou The Book of Law, ou Liber Legis. Daí retirou Crowley  a sua máxima:  Do what thou wilt, shall be the whole of the Law. Crowley viajou  por todo o mundo e viveu nos Estados Unidos da América, em França e na Sicília, onde fundou a Abadia de Thelema e de onde foi expulso. Reuniu seguidores, praticou magia e dedicou-se ao estudo sistemático da Magia Sexual. Para além dos escândalos que o tornaram famoso e, a certa altura, “o homem mais odiado de Inglaterra”, Crowley teve outras facetas mais sérias. Foi um hábil alpinista e um dos primeiros estudiosos ocidentais do Budismo e do Ioga como formas de desenvolvimento espiritual. Escreveu ficção em prosa e poesia. Criou um novo sistema de Tarot. Foi pintor. Fundou várias comunidades. A sua investigação sobre a tradição esotérica do Ocidente foi profunda e resultou num vasto conjunto de obras, de onde se podem citar, entre outras, The Book of Toth: A short Essay on the Tarot of the Egyptians, Magick: in theory and practice, The Secret Rituals of the O.T.O, 777 and Other Qabalistic Writings, Thelema: The Holy Books of Thelema. Fernando Pessoa conhecia as obras de Crowley. Em 1930, troca correspondência com a Mandrake Press, para pedir o envio de mais alguns livros deste autor. Junta uma correcção do horóscopo de Crowley e pede que esta lhe seja transmitida. Inicia-se uma troca de correspondência que termina com a visita de Crowley a Portugal. Desconhecem-se os pormenores do encontro dos dois homens, mas imagina-se que a diferença de temperamentos e da forma de encarar os temas esotéricos não favorecia uma amizade mais próxima. Em Portugal, vários incidentes e discussões entre Crowley e Hanni Jaeger, a sua companheira, terminaram com a partida desta para a Alemanha. Crowley decidiu fingir o seu suicídio para se vingar. Abandona em segredo o país e o suicídio é encenado na Boca do Inferno, com a cumplicidade de Pessoa e de Augusto Ferreira Gomes (v.) A notícia saiu no Diário de Notícias e no Notícias Ilustrado, redigida por Pessoa e assinada por Ferreira Gomes. Em Paris, a versão francesa da reportagem foi publicada na revista Détective. Houve ainda notícia do caso num jornal inglês. A polícia investiga, mas considera não haver razões para acreditar no suicídio. Fernando Pessoa transforma este episódio numa história policial em inglês, com o título The Mouth of Hell. Nela, um detective inglês vem a Portugal investigar o desaparecimento de Aleister Crowley. Conclui que, perseguido pelos seus inimigos, fugira de Portugal, pelo Sul, enquanto cúmplices chamavam a atenção para o Sud-Express. Pessoa incluiu ainda, na história, uma notícia de jornal acerca do assassinato de um taxista, na Quinta da Terrugem. Depois da visita a Portugal, a correspondência entre Pessoa e Crowley foi diminuindo, acabando por se extinguir dois anos depois. Em 1931, foi publicado na revista presença (nº33, Julho-Outubro), uma tradução do poema Hymn to Pan, de Aleister Crowley, da autoria de Fernando Pessoa. Este poema seria, afirmou Pessoa um exemplo do que é propriamente um poema mágico.

 

Do What Thou Will, A Life of Aleister Crowley, Lawrence Sutin, St.Martin’s Griffin, Nova Iorque, 2002.

Encontro Magick, Miguel Rosa, Hugin Editores, Lda, Lisboa, 2001.

Fernando Pessoa, Correspondência (1923-1935), edição de Manuela Parreira

 da Silva, Assírio & Alvim, Lisboa, 1999.

 

 

Ana Maria Freitas