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Alfredo Cortez (1880-1946)

Estremoz, 29-7-1880-Oliveira de Azeméis, 7-4-1946). Escritor, essencialmente dramaturgo, com actividade desenvolvida no período entre guerras. Estreia-se em 1918-1919 com uma Revista, Terra e Mar, que assina com o pseudónimo Virgílio Pinheiro, objecto singular na obra do autor. Dois anos mais tarde, o Teatro Nacional leva à cena a  sua peça Zilda, quando era ainda um desconhecido do público. Quer o desempenho de Amélia Rey-Colaço no papel da protagonista, quer o mérito da obra em si, valeram a Cortez rasgados elogios de todos os quadrantes da crítica, desde os mais conservadores aos vanguardistas, suscitando discussão pública em jornais e revistas. A peça constrói-se à volta da análise da complexidade psicológica de uma mulher, assumindo-se como ávida de independência, liberdade e ascensão social, que lhe conferem o estatuto de «aventureira», fonte de destruição moral e social. O inédito desta psicologia no teatro português fazem dela uma figura inovadora que deixou, literalmente, o público boquiaberto de surpresa. Apenas esta última reacção do público foi comum à sua segunda peça, O Lodo, de 1923, desta vez, porém, no sentido diametralmente oposto. Surpreendeu o enredo sórdido desenrolado num bordel da Mouraria, tendo causado desconforto nos ânimos burgueses, que dois anos antes aplaudiram o autor, os quais dificilmente apreciariam o realismo cru com que se exibiam prostituição, exploração e fratricídio passional. As dificuldades começaram logo no momento em que nenhum empresário se propôs produzir qualquer espectáculo que levasse a peça à cena, quer por falta de ousadia social e económica, quer por genuína ofensa moral, ou ainda outros motivos inconfessáveis. Quinze dias antes da estreia, Alfredo Cortez, Vitoriano Braga, Carlos Selvagem e João Correia Oliveira puseram a circular em Lisboa um «manifesto» a favor do Teatro Português contra a crítica inculta e reaccionária que tinha recebido mal uma peça de Vasco de Mendonça Alves.

Surpreendente será, também, uma vez mais por motivos opostos, o texto teatral que o autor propõe no ano seguinte, À la Fé!, peça histórica, em verso, seguindo Henrique Lopes de Mendonça ou Marcelino Mesquita na exaltação dos valores tradicionalistas. Aliás, esta reconciliação com o conservadorismo moralizante será apanágio das três peças seguintes, Lourdes (1927), O Ouro, (1928), Domus (1931).

A sua relação com a estética modernista é mais evidente, ou melhor, é unicamente perceptível na tentativa expressionista de Gladiadores (1934), subintitulado «caricatura em 3 actos» que, no entanto, constituiu um fracasso junto do grande público, tendo originado uma das maiores pateadas e reacções negativas do público da história do teatro em Portugal. Apesar de se lhe reconhecerem laivos pirandelianos, ― uma simbiose entre expressionismo e simplismo em que as personagens não têm nome, jogando-se com a alternância personagem-actor ― a crítica parece não ter entendido o sentido da renovação teatral advogada por Alfredo Cortez. Eco antonomásico dessa tacanhez é a confissão do crítico do jornal República de 13 de Janeiro de 1934: «Eu não percebi patavina do que ontem vi e ouvi lá em baixo no Teatro Nacional». O próprio Alfredo Cortez, com algum humor, atribuía o insucesso ao facto de a peça, ao contrário das demais, ter no título mais do que cinco letras. Alguns intelectuais, como Eduardo Scarlatti, aplaudiram, apelidando o autor de «único verdadeiramente vanguardista». Apenas se conhece uma outra tentativa deste género afastado da realista análise social de carácter, Babel, que ficou incompleta.

Este fracasso ditou um novo rumo, desta vez enveredando pelos costumes populares. Surgem em 1936 Tá-Mar, e, dois anos depois, Saias, ambas permitindo ao autor o alargamento do seu emblema linguístico-estilístico, que associa à linguagem directa gírias típicas de grupos sociais, como a dos pescadores da Nazaré em Tá-Mar, peça que lhe vale o prémio Gil Vicente atribuído pelo Secretariado da Propaganda Nacional, ou até dialectais, como o uso do mirandês em Saias. Ao primeiro destes efeitos voltará Alfredo Cortez em 1942, quando Leitão de Barros o convida a escrever argumento diálogos do filme Ala-Arriba. Ao segundo, fá-lo na tentativa de fixação de um crioulo angolano da zona de Benguela, língua em que se exprimem as personagens angolanas de Moema, escrita em 1940, com publicação póstuma.

O último período criativo pode caracterizar-se pela preferência dada à crítica de costumes, em peças ambientadas numa burguesia que, se não devassa, pelo menos propícia ao desenvolvimento de caracteres dissolutos. Em 1939 escreve Bâton, peça a que se referia como O Lodo elegante. Só após a morte do autor teve autorização da censura para ser levada à cena, no Teatro da Trindade, pela companhia de Francisco Ribeiro, em 31 de Outubro de 1946. Lá-Lás, de1944, continua por representar.

Para além dos originais, Alfredo Cortez traduziu e adaptou para o teatro: André de Josset (Rainha Isabel de Inglaterra), Henry Gheson (Wang, Sábio Três Vezes Sábio), Schiller (Maria Stuart). O seu teatro foi estudado por Eurico Lisboa (Filho), em «O Teatro de Alfredo Cortez», Bulletin d’Histoire du Théâtre Portugais, Tome IV, nº 1, 1953, pp. 1-48, e por Duarte Ivo Cruz na «Introdução ao Teatro de Alfredo Cortez », Teatro Completo, Lisboa, IN-CM, 1992, pp. 7-69. O espólio conserva-se na Biblioteca Nacional de Portugal (N46).

 

José Camões