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Além-Deus

Poema escrito, provavelmente em 1913, divide-se em cinco partes, respectivamente, em Abismo, Passou, A Voz de Deus, A Queda e Braço sem corpo brandindo um Gládio. Quanto ao estilo, parece muito próximo do paulismo, pelos jogos entre maiúsculas e minúsculas, pela utilização de algumas formas reflexas do verbo («Ó Universo, eu sou-te…»; «Ó mundo , /Sermente em ti eu sou-me…»), pela sugestão do vácuo, do oco, das cinzas de ideia, pelas sucessivas dilacerações e intersecções entre corpo e alma, aquém e além, Me/Mim e Deus, pela procura de um outro sentido metafísico que está sempre oculto para além do imediato das coisas. As cinco partes em que se divide o poema, sugerem cinco momentos do percurso de um eu que se interroga a si mesmo enquanto interroga o real, o universo e Deus. Na primeira parte, enquanto procura a resposta (meta)física para a pergunta « O que é ser-rio, e correr?» sente o abismo dessa dúvida, a dor de pensar e, na intranquilidade e desassossego dessa procura, encontra Deus. Na Segunda, pressente-se, de modo absolutamente vago, subtil e complexo, como ditava a lei da poesia paúlica nesta época e, como dita a própria lei divina, que Deus é, tal como as formas verbais que o designam, simultaneamente, gerúndio e pretérito perfeito - «Passou, fora de Quando, / De Porquê, e de Passando…», algo que é perfeito no seu imenso retraímento, coincidência total com o universo. Na terceira parte, o poeta ouve a voz de Deus, o arquitecto do mundo, e numa perfeita indefinição pessoal, decorrente de uma permanente indefinição de formas verbais que este poema paúlico desenvolve, a voz de Deus funde-se e confunde-se com os ecos da voz do poeta. No momento seguinte, assiste-se à queda simbólica deste eu que desce a escada Absoluta sem degraus até às profundezas mais negras dos abismos de si mesmo e, onde a visão ou a percepção de um Além-Deus,lhe reforça a sua ideia de que o caminho não acaba em Deus, passa para além dele, evade-se de todos os caminhos, porque os mistérios não se podem dar a conhecer, são sempre, por natureza, esquivos como a serpente, imagens simbólicas, aliás, exemplarmente desenvolvidas, nos fragmentos d`O Caminho da Serpente. Finalmente, na última parte do poema, absolutamente anti-épica, como o próprio título deixa logo antever, braço sem corpo brandindo um gládio, volta-se à interrogação retórica inicial- «Entre o que vive e a vida /Pra que lado corre o rio?» -, onde o poeta tenta encontrar os limiares, margens movediças entre o sentir e o sonhar, intervalos entre a palavra e o silêncio, errâncias entre Deus e ele próprio, entre a parte e o todo, subtilezas entre a matéria e o espírito.

 

 

Paula Cristina Costa