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Alberto de Serpa (1906-1992)

Alberto de Serpa nasceu em 1906, no Porto, e aí faleceu em 1992. Estudou Direito em Coimbra, colaborou nas revistas A Águia (Porto, 1910) e Tríptico (Coimbra, 1924), e foi secretário da 2ª série de Presença (1939-40) e da Revista de Portugal (1937-40), dirigida por Vitorino Nemésio. Pertenceu à geração presencista e foi sob a chancela da publicação coimbrã de 1927 que publicou boa parte dos seus livros de poesia. Estreou-se em 1924 com a novela A Saudade do Mar, a que se seguiram, no mesmo ano, os volumes poéticos Quadras e Evoé. Dessas primeiras obras diria mais tarde, numa composição incluída em Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro: “Se acaso qualquer desses livros vejo/junto de amiga ou inimiga mão,/as faces, a alma, cobrem-se de pejo./ - Só, aperto-os com saudade ao coração” (“Primeiras obras do Autor”). Não se revendo literariamente nessas primícias dos dezoito anos, Alberto de Serpa considerou o livro Varanda, dado à estampa em 1934 pelas edições Presença, o início duma obra poética que contaria ainda mais catorze volumes: Descrição (1935), 20 Poemas da Noite (1935), A Vida é o Dia de Hoje (1939), Drama (1940), Lisboa é Longe (1940), Fonte (1943), Rua (1945), Retrato e Lição de Gomes Leal (1948), Pregão (1952), Vê se Vês Terras de Espanha (1952), Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro (1954), Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro (1954), Mais uns Versos de Castela (1957) e Os Versos Secretos (1981).

A crítica tem distinguido duas fases neste percurso poético: a primeira vai até 1940, de Varanda a Lisboa é Longe, e caracteriza-se pelo verso livre, discursivo e até torrencial, sobretudo de 1935 em diante; a segunda, que se inicia com o volume Fonte, retoma o verso escandido, por vezes muito curto, e amolda-se a uma poética mais tradicional, em que a quadra é o esquema estrófico dominante, incorporando a lição de Fernando Pessoa ortónimo. No prefácio à 1ª edição d’ A Poesia de Alberto de Serpa (Porto, 1981), João Gaspar Simões realça nos seguintes termos a originalidade formal daquela primeira fase poética: “(...) Com Varanda, praticamente até ao aparecimento de Fonte, em 1943, Alberto de Serpa coloca-se à frente dos líricos presencistas que mais livremente se comportaram dentro do território poético nacional. É ele, quando Álvaro de Campos apenas ainda era conhecido de alguns poucos, quem, por assim dizer primeiro, usa o versilibrismo com o desaforo com que o versilibrismo então apenas era cultivado na poesia brasileira”. Gaspar Simões recorda também a seguinte observação de Jorge de Sena, em carta de 24 de Setembro de 1977, a respeito do poeta de Descrição: “Está ele esquecido, e foi um dos mestres melhores e mais inconfessados da presença (pense só no que os neo-realistas comeram dele, sem jamais o mencionarem, que eu recorde)”. Na verdade, o cotejo de textos a que esta observação convida revela-nos inesperadas perspectivas: veja-se, por exemplo, a semelhança estrutural e formal entre a “Arte poética” de Mário Dionísio, publicada em 1941 no Novo Cancioneiro (“A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia/nem no jardim dos lilases (...)”), e a composição “Poesia”,  incluída no volume Descrição (“A Poesia está na alma do poeta/e na sua vida (...)”).

Para além dos aspectos formais referidos – a que conviria acrescentar ainda o gosto por certo discursivismo paralelístico e anafórico, por exemplo em poemas como “Mais valera...”, “Manifesto” ou “Cá e lá” - , o que particulariza também a poesia de Alberto de Serpa é o modo como nela se cruzam objectivismo e subjectivismo, ou, por outras palavras, descritivismo realista e introspecção. O poeta escreve em Varanda: “A minha alma precisa/duma paisagem, cada dia/... e do que vive nas paisagens”. A paisagem é um dos seus  “alimentos poéticos”, mesmo quando se trata duma paisagem interior ou sonhada (“Varanda, minha varanda/donde avisto/tudo quanto não se vê!”); e as equivalências entre o real exterior e o lance de olhos para dentro são metaforicamente expressas em vários poemas, como é o caso de “Temporal”, de assinalável plasticidade, mesmo se eivado de intelectualizadas sugestões pessoanas (“Nesta casa, só eu, o frio e o medo./Lá fora, a chuva e o vento./(...) As árvores contorcidas são os meus pensamentos loucos./A casa do jardim, sem luz, é o meu cérebro sem entendimento (...)”). Como sublinha ainda Gaspar Simões, “dois são os aspectos da sua poesia já de maturidade – admitindo que é já de maturidade o seu livro Varanda, de 1934 - , um, em que o poeta se descobre olhando o mundo, outro, em que o poeta se descobre olhando para si mesmo, embora nunca, em verdade, sem se ver como homem no mundo”.

Serpa retoma temas e tópicos caros à geração presencista, como a figuração do Poeta como um ser solitário e à margem (“Eu sou para aqui um pobre poeta espontâneo e triste”), predestinado (“Para mim veio este destino errante de poeta...”) e alheado (“Quero fugir para a floresta/longe e só!”; “O mar é um poeta fechado na sua torre-de-marfim”); ou o tópos da noite, como lugar de todas as inquietações e momento privilegiado da criação poética (“Há sempre mais um poema triste para sair da noite”), glosado de forma continuada em 20 Poemas da Noite e passim noutros livros de versos. São ainda de recorte presencista os tópicos provinciais do largo, da pequena praça quieta, da “morta calçada”, do beco e dos espaços confinados e tocados de melancolia. Esse provincialismo poético é a cada passo tematizado em versos intimistas de delicado desenho (“Neste suave recanto de jardim público,/mais provinciano que a cidade onde está,/anda a noite a fazer poesia”) e exacerba-se em Lisboa é Longe e em Rua.

Já no volume Drama (Poemas da Paz e da Guerra), a circunstância histórica da Segunda Guerra Mundial faz com que o poeta se interrogue sobre o sentido dos seus versos (“Então, terei de dizer adeus à minha poesia provinciana e calma?”) e determina um sentido de empenhamento que se traduz num conjunto de poemas de condenação da guerra e de apelo à fraternidade entre os homens. Muitos deles são angustiadas invocações a um Deus de clemência e justiça (“Senhor, a Tua justiça há-de mandar parar o ódio!”). A poesia religiosa representa, aliás, uma parte importante da obra de Alberto de Serpa, nos volumes A Vida é o Dia de Hoje e Drama. O versículo e a composição em forma de prece, com os seus paralelismos e redundâncias rítmicas, dão uma forma encantatória a uma poesia que canta o amor e a piedade, e que anseia por “abrir os olhos dos outros homens para as coisas misteriosas da vida”.

Bibliografia: David Mourão-Ferreira, Vinte Poetas Contemporâneos,  Lisboa, Ática, 1980; João Gaspar Simões, “Sobre a poesia de Alberto de Serpa”, in A Poesia de Alberto de Serpa, Porto, Edições Nova Renascença, 1981, pp. 9-17; Luís Adriano Carlos, prefácio a A Poesia de Alberto de Serpa, Porto, Campo das Letras, 1998, pp. 9-13.            

 

C.Rocha